Samora tinha amor profundo e defendia os interesses do povo

De acordo com Graça Machel, Samora Machel nunca disse que era perfeito, mas ensinou que aquilo que pertence ao povo é sagrado e intocável. Para ele, o património nacional deve ser protegido a todo o custo porque pertence a todos e ninguém deve ter a coragem de pensar que é justo tirar das mãos do povo.

A viúva do primeiro Presidente de Moçambique independente, Graça Machel, considera que Samora Machel foi um verdadeiro nacionalista, com amor genuíno e profundo pelo seu povo e diz não ter dúvidas de que Samora que perdeu a vida a 19 de Outubro de 1986, foi assassinado.

Graça Machel, afirma ainda que Samora Machel deu o melhor de si para a afirmação e identidade do seu povo com dignidade e verticalidade. “Nós nos colocávamos ao lado de outros povos sem complexo de inferioridade e em algum momento com complexo de superioridade por termos vencido o exército colonial e por termos apoiado o Zimbabwe a alcançar a sua independência.

A activista social lembrou as questões de Afirmação, Unidade Nacional e Dignidade muito defendidas por Samora Machel. “Pela sua maneira de ser e de estar ninguém no mundo se atrevia a olhar para ele de cima. “Vou dar um exemplo que muitos de nós acompanhamos quando o Presidente Samora foi a casa Branca, nos Estados Unidos, durante a presidência do Ronald Reagan,  onde apertou-lhe a mão e Reagan baixou a crista e cumprimentou um Chefe do Estado de igual para igual”, afirma a viúva, acrescentando que aquela maneira de se apresentar ao mundo não era de Samora Machel, mas do povo moçambicano.

Graça Machel falava recentemente em Maputo, na cerimónia do lançamento da obra intitulada “Samora Machel: Uma vida interrompida”, da autoria do casal americano Allen  F. Isaacman e Barbara S. Isaacmam. A mesma cerimónia serviu para o anúncio pela família, da institucionalização do ciclo de vida do primeiro Presidente de Moçambique, que nasceu a  29 de Setembro de 1933 e perdeu a vida, num acidente aéreo, na vizinha África do Sul, a 19 de Outubro de 1986.

A activista social defende a recuperação da afirmação e dignidade dos moçambicanos como um povo e que toda a sociedade se aceite de igual para igual. Explica que isso é muito fundamental numa altura em que os jovens são “bombardeados” por todas as influências que o desenvolvimento apresenta.

“Se há alguma coisa que devemos recuperar de Samora Machel é o orgulho de sermos moçambicanos, o grande sentido de termos uma pátria que é de todos nós, abaixo da qual todos somos iguais, todos temos deveres e todos devemos estar preparados para darmos tudo por ela”.

Graça Machel lamenta pelo facto de hoje falar-se pouco de pátria e apela para necessidade de todos trabalharmos para a recuperação desse sentido patriótico. “Samora inculcou em jovens o sentido de pátria, de nação e a grandeza e a capacidade com que nos afirmámos na comunidade das nações”, disse.

Segundo a viúva, hoje questiona-se inclusive se somos uma nação, havendo pessoas que até se atrevem em afirmar que “temos que dividir o país, no lugar de apresentarem as formas que devemos seguir para construirmos a Unidade Nacional e sermos uma nação respeitada”.

De acordo com Graça Machel, Samora nunca disse que era perfeito, mas ensinou que aquilo que pertence ao povo é sagrado e intocável. “Para Samora Machel aquilo que é património nacional deve ser protegido a todo o custo porque pertence os 30 milhões de moçambicanos e ninguém pode e deve ter a coragem de pensar que é justo tirar das mãos do povo.

Acrescentou que era impensável para Samora Machel que alguém pudesse tirar pão da boca da criança e tornar todo o povo moçambicano pobre materialmente, como se encontra hoje.

“Este é um povo muito forte espiritualmente e essa é a nossa salvação, mas de ponto de vista material não temos nada. Não é justo e não há razão para a situação em que estamos a viver”, disse Graça Machel, apelando a toda a sociedade para usar como bússola, sobretudo os mais novos, todos os valores deixados por Samora Machel.

Acrescentou que Samora foi assassinado quando tinha apenas 53 anos e questiona: “O que são 53 anos, é a idade do meu filho Samora Machel Júnior, ele foi morto ainda na flor da vida, quando ainda tinha muito para dar”, lamentou.

Segundo Graça Machel a questão que se coloca é porque é que o Presidente Samora foi morto? “Aqui neste país pensou-se que ao matar Samora estar-se-ia também a matar os valores, princípios e ideais que eram por si  defendidos”, disse, a viúva salientando que  hoje está a ficar cada vez mais claro que Samora foi morto.

“Com toda modéstia este país nunca mais foi o mesmo depois da morte de Samora Machel, e não foi por acaso que naquele avião morreram pessoas de todas as raças e de todas as províncias do país. A mini nação estava naquele avião”, desabafou.

A activista social e presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), aproveitou a ocasião para agradecer os filhos de Samora Machel, porque segundo ela, ao longo dos 35 anos sem o pai souberam manter-se firme. “Algumas pessoas disseram que queriam ver como é que a família ficaria sem Samora, “mas estamos aqui, não fomos nem para esquerda nem para direita, mantemos vivos todos os princípios e valores por ele ensinados”, disse Graça Machel.

Também agradeceu aqueles que chamou de grande família que Samora deixou, referindo-se a amigos e colegas do primeiro Presidente. “São filhos que de uma ou de outra maneira foram moldados por ele e nunca se afastaram nem de nós como agregado e nem dos valores e princípios que dele beberam”, finalizou.

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