Indemnização oferecida pela Alemanha: Namibianos protestam junto ao parlamento

Para os manifestantes, a soma oferecida pela Alemanha pelo genocídio de Hereros e Namas (1904-1908), é demasiado pequena. Também argumentaram não terem participado nas negociações com Berlim, que só reconheceu o erro após mais de um século.

Centenas de pessoas invadiram o Parlamento, (21 de Set) em Windhoek, antes da votação sobre a indemnização oferecida pela Alemanha aos Herero e Nama. Para os manifestantes, a oferta “apenas aguça a dor” das vítimas do genocídio.

A Assembleia Nacional se preparava para votar sobre uma oferta de indemnização de mil milhões de dólares da Alemanha para reparar o genocídio de Hereros e Namas (1904-1908).

As autoridades namibianas anunciaram a 28 de Maio do presente ano, que a Alemanha tinha concordado em financiar projetos com aquele montante por um período de mais de 30 anos, para compensar o massacre na sua então colónia, há mais de um século.

A Alemanha pediu perdão naquela mesma data pelo seu papel na matança das etnias Herero e Nama e descreveu oficialmente o massacre como genocídio pela primeira vez.

Os manifestantes liderados pela oposição e líderes tradicionais das comunidades afetadas marcharam na capital Windhoek antes de escalarem uma cerca para entrar no edifício do Parlamento.

Para os manifestantes, a soma oferecida pela Alemanha é demasiado pequena. E também argumentaram não terem participado nas negociações com Berlim.

O que aconteceu

Não vai ser fácil curar as feridas profundas e antigas deixadas pela Alemanha na Namíbia, após o que agora é reconhecido como um genocídio perpetrado por forças coloniais.

Em Maio deste ano, após mais de 100 anos, Berlim reconheceu oficialmente as atrocidades que cometeu durante a ocupação colonial da Namíbia e ofereceu ao país africano uma quantia em dinheiro como compensação.

Mas as sociedades afectadas directamente por esta situação questionam: Como se compensa a destruição de uma sociedade inteira? Que preço colocar?

A Alemanha concordou em pagar mais de 1 bilhão de dólares.

“À luz da responsabilidade histórica e moral da Alemanha, pediremos desculpas à Namíbia e aos descendentes das vítimas”, disse o ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, na sexta-feira.

O governante alemão acrescentou que seu país, em um “gesto de reconhecimento do imenso sofrimento infligido às vítimas”, apoiará o desenvolvimento da nação africana através de um programa que vai custar mais de 1,3 bilhões de dólares.

A quantia será paga em 30 anos e investida em infraestrutura, assistência médica e programas de treinamento que beneficiam comunidades afetadas.

Mas alguns líderes namibianos até agora se recusaram a apoiar o acordo, informou o jornal local New Era.

Na Namíbia, descendentes de vítimas e colonos debateram ferozmente sobre o valor financeiro associado ao genocídio.

Desde 2015, quando a Alemanha reconheceu formalmente que as atrocidades cometidas ali poderiam ser classificadas como genocídio, o país vinha negociando um acordo de justiça restaurativa com a Namíbia.

Nunca antes uma ex-potência colonial se sentou com uma ex-colônia dessa maneira para chegar a um acordo abrangente sobre o legado do passado.

A Alemanha disse na época que apresentaria um pedido formal de desculpas.

As potências europeias selaram a divisão da África na conferência de Berlim, em 1884. A Alemanha, que tinha colônias no território atual de Camarões, Togo e Tanzânia, também anexou a costa sudoeste do continente africano, hoje Namíbia.

Lá, a Alemanha expulsou comunidades de suas terras, que foram entregues a colonos alemães. A população nativa foi submetida a todos os tipos de abusos, incluindo estupro e assassinato.

Em 1903, os guerreiros Herero e Nama se rebelaram, lançando ataques que mataram dezenas de colonos.

A esta rebeldia, a Alemanha respondeu implacavelmente. Em 1904, o imperador alemão, Kaiser Wilhelm II, despachou cerca de 14.000 soldados para a Namíbia sob o comando de Lothar von Trotha, o general que reprimiu brutalmente rebeliões nativas na China e na África Oriental.

Aqueles que sobreviveram a batalhas como a de Waterberg foram mortos ou forçados a entrar no deserto de Kalahari, onde soldados alemães envenenaram poços de água.

A mensagem de Von Trotha aos hereros não deixa margem para dúvidas:

“Eu, general dos soldados alemães, mando esta carta aos Herero. A nação Herero deve deixar o país … Se recusarem, eu os forçarei com tiros de canhão … Qualquer Herero, com ou sem armas, será executado.”

 

“Von Trotha disse a seus soldados que eles não perderiam sua honra atirando em mulheres e crianças. Eles atiravam para assustá-los e forçá-los a fugir para o deserto, onde enfrentariam morte certa de sede e fome”, Reinhart Koessler, professor do departamento de ciência política na Universidade de Freiburg e acadêmico especializado em memória política, que estudou o passado colonial da Alemanha na África Ocidental por duas décadas.

Para Koessler, as palavras de Von Trotha “eram uma intenção clara de extermínio, e é isso que constitui genocídio, a vontade de eliminar um grupo étnico”.

O estupro de mulheres herero e nama foi tão comum que muitos descendentes agora têm ascendência alemã.

“Sou descendente direto dos Ovaherero. Meus avós paternos e maternos tinham sangue alemão nas veias devido ao abuso sexual que os soldados alemães cometeram contra meu povo”, disse Ngondi Kamatuka, presidente em exercício da Associação Ovaherero contra o Genocídio no Estados Unidos.

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