Psicanalistas e especialistas de Moçambique e de outros países debatem os impactos da violência, perseguição e conflitos armados na infância.
Quando a guerra entra na vida de uma criança, as suas consequências podem permanecer muito depois de cessarem os tiros. Trauma, medo, perda dos pais, deslocação, violência sexual, recrutamento forçado e exclusão social são algumas das experiências que podem marcar profundamente crianças e adolescentes, deixando feridas que atravessam gerações.
É a partir desta realidade que especialistas de Moçambique, Portugal, Brasil, Itália, Nigéria e Suíça vão reunir-se, amanhã, 19 de Setembro de 2026, para uma sessão pós-congresso internacional de psicanálise dedicada ao tema “Crianças, Guerra e Perseguição”.
IV Congresso Internacional de Psicanálise, teve lugar em Maputo, entre os dias 14 e 16 de Maio, do presente ano.
Realizado entre as 13h00 e as 17h30, hora de Moçambique, o encontro pretende criar um espaço de reflexão sobre a violência organizada contra crianças e suas famílias, incluindo violência militar, perseguição política e religiosa, tortura, desaparecimento dos pais, genocídio, fuga, pobreza e exclusão social.
A discussão ganha particular relevância perante situações em que crianças e adolescentes são envolvidos directamente em conflitos armados. Alguns são forçados a combater, enquanto outros são utilizados em actividades de apoio logístico, como o transporte de armas ou a produção de alimentos para grupos armados. As raparigas enfrentam ainda riscos acrescidos de exploração e violência sexual.
No caso de Moçambique, o norte do país constitui um dos contextos que serão considerados no debate, devido ao impacto da violência armada sobre crianças e adolescentes. Entre as situações apontadas está o aliciamento de menores para integrarem forças não estatais, sob argumentos associados à jihad islâmica.
A memória das feridas
A primeira mesa, “As Vozes da Memória: Trauma, História e Transmissão”, decorrerá das 13h00 às 15h00 e procurará compreender de que forma experiências traumáticas são vividas, recordadas e transmitidas entre gerações.
A sessão contará com Rosmarie Barwisnski, da Suíça, que abordará “Trauma, Contratransferência e Compulsão à Repetição”.
O nigeriano Arinze Kingsley Nworah falará sobre as consequências do trauma transgeracional no contexto do Sudão do Sul, através do tema “Feridas Herdadas: Uma Exploração Psicodinâmica do Trauma Transgeracional entre Mães Adolescentes e seus Filhos no Sudão do Sul”.
Já Elsa Couchinho, de Portugal, discutirá os “Aspectos Socioculturais e Transgeracionais: Legados do Colonialismo e Sofrimento”. A mesa será facilitada por Sheila Melzak.
Da violência aos caminhos da cura
A segunda mesa, “Os Caminhos da Cura: Cultura, Trauma e Transformação”, terá lugar das 15h30 às 17h30 e estará centrada na relação entre cultura, trauma e processos de transformação.
O italiano Roberto Beneduce apresentará a reflexão “Futuro Traumático: Como a Violência Colonial Despoja o Sujeito do seu Futuro e Conduz à Alienação”.
A realidade das escolas moçambicanas será analisada por Domingos Joaquim Mucarreia, Marília Cuambe e Boia Efraime, autores da apresentação “Desmaios Colectivos entre Raparigas e Violência entre Rapazes nas Escolas Públicas de Nacala-Porto”.
Do Brasil, Ricardo Marinho da Silva levará ao encontro o tema “Cruzamentos do Sofrimento Sociopolítico Racializado na Infância: Relato Clínico Psicanalítico”. A segunda mesa será facilitada por Marianne Rauwald.
O mote desta segunda sessão é uma frase do escritor moçambicano Mia Couto: “É para isso que servem os caminhos: para nos fazerem parentes do futuro.”
Mais do que discutir a violência como fenómeno político ou militar, o encontro propõe olhar para aquilo que permanece depois dela: as marcas psicológicas, as memórias, os silêncios e os traumas que podem acompanhar uma criança ao longo da vida e passar de uma geração para outra.
Como lembra a frase atribuída ao escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, usada como mote da primeira mesa: “A memória é o lugar onde os mortos continuam a falar.”