Reconhecimento no Brasil: a longa caminhada intelectual de José Castiano

Professor catedrático moçambicano é distinguido pela Academia Campinense de Letras, numa homenagem a uma carreira dedicada à educação, à filosofia e ao pensamento africano

Distinção representa o reconhecimento de uma carreira dedicada à produção e disseminação do conhecimento.

Há percursos académicos que começam nos grandes anfiteatros das universidades. O de José P. Castiano começou muito antes — na Beira, passou pelas salas de aula, atravessou fronteiras e acabaria por encontrar na filosofia uma das suas principais ferramentas para interrogar Moçambique, África e o mundo.

É este percurso que agora recebe reconhecimento no Brasil.

O Vice-Reitor Académico da Universidade Pedagógica de Maputo foi distinguido pela Academia Campinense de Letras com um Diploma de Mérito, em reconhecimento do seu percurso académico e intelectual, da sua contribuição para a Filosofia da Educação e para a Filosofia Africana, bem como da sua produção científica.

A distinção chega depois de décadas de docência, investigação e escrita, numa trajectória em que a educação e a filosofia se cruzam permanentemente. Mas também reconhece, entre outros aspectos, o contributo de Castiano para o desenvolvimento da Filosofia da Educação e da Filosofia Africana, bem como a relevância da sua produção científica ao longo da carreira.

Mais do que uma distinção individual, o reconhecimento atribuído no Brasil projecta também a produção intelectual moçambicana para além das fronteiras nacionais, num momento em que o debate sobre o pensamento africano e os seus contributos para a educação continua a ganhar espaço no meio académico internacional.

Da Beira para o mundo

Nascido na cidade da Beira, em 1962, Castiano iniciou ali os seus estudos primários. A sua formação levou-o posteriormente a Maputo e, ainda jovem, à República de Cuba, onde frequentou a Escola Secundária Samora Machel, na então Ilha de Pines.

De regresso a Moçambique, formou-se professor de História e Geografia. Foi uma experiência que o colocou em contacto directo com a realidade das escolas e das comunidades e que, mais tarde, ajudaria a alimentar a sua reflexão sobre educação e sociedade.

Mas a sala de aula seria apenas o primeiro capítulo.

Castiano seguiu para a Alemanha, onde estudou na Universidade de Greifswald, licenciando-se em Ensino das Ciências Sociais, com especialização em Filosofia. Mais tarde, prosseguiu a formação na Universidade de Hamburgo, onde se doutorou na área da Filosofia com enfoque na Educação.

A Alemanha não representou apenas uma etapa de formação. Foi também um espaço a partir do qual Castiano aprofundou instrumentos teóricos que viriam a marcar o seu pensamento e a sua produção académica.

De regresso ao espaço académico moçambicano, Castiano construiu uma carreira ligada à docência, investigação e produção científica.

Professor de Filosofia, Filosofia da Educação e investigador, tornou-se uma das vozes associadas ao desenvolvimento da reflexão contemporânea sobre a Filosofia Africana, ocupando actualmente a Cátedra de Filosofia Africana, com especialidade em Educação, na Universidade Pedagógica de Maputo.

O seu pensamento procura colocar África não apenas como objecto de estudo, mas como espaço de produção de conhecimento.

É nesse caminho que aparecem conceitos e preocupações recorrentes na sua obra: saberes locais, educação, currículo, tradição, reconciliação, ética, política e os desafios da construção de um pensamento africano capaz de dialogar com outras tradições filosóficas sem perder a sua própria voz.

Em “Referenciais da Filosofia Africana: Em Busca da Intersubjectivação”, uma das suas obras de referência, Castiano aprofunda precisamente a questão da intersubjectivação e da construção do pensamento filosófico africano.

Mais tarde, em obras como “Os Saberes Locais na Academia”, “A ‘Liberdade’ do Neoliberalismo”, “Do Espírito da Tradição ao Espírito da Reconciliação” e “O Inter-Munthu: Uma Filosofia da Reconciliação em Busca do Mínimo”, amplia o território da sua reflexão.

Se a filosofia lhe deu instrumentos para questionar o mundo, a educação tornou-se um dos terrenos privilegiados dessas perguntas.

Em “Educar para Quê?”, Castiano reflecte sobre as transformações do sistema de educação em Moçambique. Em parceria com Severino Ngoenha, participou também na produção de “Pensamento Engajado: Ensaios sobre Filosofia Africana, Educação e Cultura Política”, aproximando filosofia, educação e cultura política.

A sua investigação estende-se ainda ao currículo, aos saberes locais, às políticas públicas e à educação nos países da África Austral.

É uma característica que ajuda a explicar a singularidade do seu percurso: Castiano não se limitou a pensar a filosofia como exercício abstracto. Procurou colocá-la em diálogo com problemas concretos das sociedades africanas.

A trajectória académica acabaria por conduzi-lo também à gestão universitária.

Em 2019, Castiano foi nomeado Vice-Reitor Académico da Universidade Pedagógica de Maputo, tendo sido reconduzido ao cargo em 2024, após eleições internas.

A função acrescentou uma nova dimensão ao percurso de um académico que durante décadas esteve ligado ao ensino e à investigação.

Hoje, entre a administração universitária, a docência, a investigação e a escrita, Castiano continua a ocupar um espaço de intervenção no debate sobre o futuro da educação e do pensamento africano.

Distinção que ultrapassa o homem

É neste contexto que surge o Diploma de Mérito atribuído pela Academia Campinense de Letras.

O reconhecimento brasileiro não é apenas uma homenagem a um professor ou a um dirigente universitário. É também uma distinção a uma trajectória construída entre diferentes geografias do conhecimento — da Beira a Maputo, de Cuba à Alemanha e, agora, ao reconhecimento de uma instituição académica brasileira.

A homenagem projecta, por isso, não apenas o nome de José Castiano, mas também uma parte da produção intelectual moçambicana e africana.

Ao longo da sua carreira, Castiano procurou fazer da universidade um lugar de questionamento, diálogo e produção de conhecimento. A sua obra revela uma preocupação constante em pensar África a partir das suas próprias experiências, saberes e desafios, sem fechar as portas ao diálogo com o pensamento universal.

É talvez por isso que esta distinção ganha um significado maior.

Para a Universidade Pedagógica de Maputo, a distinção representa igualmente o reconhecimento de uma carreira dedicada à produção e disseminação do conhecimento.

A instituição endereça ao  Professor Catedrático José P. Castiano as suas felicitações, desejando-lhe novos êxitos na sua trajectória académica e intelectual.