O Mundial que deixou África à porta

Para alguns africanos, a porta do Mundial esteve aberta no discurso, mas fechada na fronteira. E é essa contradição que continuará a perseguir as promessas feitas antes do torneio.

A promessa feita em Nairobi, em 2025,  de que os africanos seriam “bem-vindos” na América do Norte é agora confrontada com o caso do árbitro somali, Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar nos Estados Unidos, e com as dificuldades enfrentadas por outros africanos durante o Mundial 2026.

Dias antes do início do Mundial 2026, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan aterrou no Aeroporto Internacional de Miami com a expectativa de fazer história. Aos 34 anos, tinha sido eleito o melhor árbitro masculino de África em 2025 e estava prestes a tornar-se o primeiro somali a dirigir um jogo num Campeonato do Mundo.

Retido pelas autoridades norte-americanas, Artan acabou impedido de entrar nos Estados Unidos e enviado de volta à Somália. “Tinha os documentos certos e tudo. Tinha o visto certo”, afirmou posteriormente aos jornalistas.

A FIFA confirmou a situação, explicando que o árbitro não poderia treinar nem dirigir jogos no Mundial depois de lhe ter sido recusada a entrada no país.

Segundo um responsável norte-americano, as autoridades teriam identificado alegadas ligações de Artan a suspeitos de pertencerem a organizações terroristas. O árbitro, por sua vez, relatou ter sido interrogado durante cerca de 11 horas, incluindo sobre política somali e sobre o grupo militante al-Shabab.

O episódio reacendeu uma questão que já havia sido colocada directamente a Gianni Infantino, presidente da FIFA, quase um ano antes.

A promessa de Nairobi

A 30 de Agosto de 2025, durante uma conferência de imprensa em Nairobi, Infantino estava ao lado de Patrice Motsepe, presidente da Confederação Africana de Futebol, quando um jornalista sul-africano levantou uma preocupação que atravessava vários países africanos.

Os adeptos africanos sentir-se-iam realmente bem-vindos nos Estados Unidos?

O jornalista alertou para a apreensão existente entre os africanos perante as políticas migratórias norte-americanas e defendeu que a FIFA e a CAF tinham a responsabilidade de garantir que África não fosse excluída nem tratada como um conjunto de cidadãos de segunda categoria.

Infantino respondeu sem hesitar. “Toda a gente será bem-vinda na América do Norte no próximo ano para o Mundial”, garantiu.

Acrescentou que era necessário combater aquilo que considerava serem “ideias erradas” sobre o acolhimento dos visitantes. Mas os acontecimentos posteriores colocariam essa garantia à prova.

Quando o visto não foi suficiente

As dificuldades de entrada na América do Norte tornaram-se uma preocupação para adeptos e profissionais africanos.

Houve relatos de dificuldades envolvendo cidadãos de países como Nigéria, Gana, Senegal, Camarões e Costa do Marfim.

O caso de Artan ganhou especial destaque porque não se tratava de um simples adepto. Era um árbitro seleccionado para participar na principal competição organizada pela FIFA.

A situação levantou uma questão incómoda: se até um profissional oficialmente credenciado para trabalhar no Mundial podia ser impedido de entrar, como seriam tratados os adeptos comuns que atravessaram fronteiras para acompanhar as suas selecções?

Artan voltou a fazer história

A exclusão do Mundial não significou o fim da trajectória internacional do árbitro somali.

Depois de regressar ao seu país, Artan continuou a dirigir grandes partidas e acabou por fazer história na Europa ao arbitrar a Supertaça da UEFA, tornando-se o primeiro árbitro não europeu a desempenhar essa função.

O contraste é evidente. O mesmo árbitro que foi impedido de entrar nos Estados Unidos para participar no Mundial acabaria reconhecido num dos maiores palcos do futebol europeu.

África continua ao lado de Infantino

Apesar das dúvidas levantadas antes e durante o Mundial, a liderança do futebol africano não avançou para um confronto aberto com Infantino.

A CAF manteve a relação institucional com a FIFA, enquanto as críticas e interrogações continuaram sobretudo entre jornalistas, adeptos e observadores africanos.

É aqui que permanece a principal pergunta.

Infantino prometeu em Nairobi que África seria bem-vinda.

O Mundial terminou. Mas o caso de Omar Artan deixou uma imagem difícil de ignorar: para alguns africanos, a porta do Mundial esteve aberta no discurso, mas fechada na fronteira.

E é essa contradição que continuará a perseguir as promessas feitas antes do torneio.