Professor Doutor Rui Sixpence Conzane recorda durante o lançamento da sexta edicção, os bastidores da criação da revista ÁGORA e revela que, antes de aceitar o desafio de coordenar a publicação, submeteu a jornalista Joana Macie, a um verdadeiro interrogatório. Três meses de perguntas depois, nasceu uma história editorial que já chegou à sexta edição.
Onde nasce uma revista? Na gráfica, talvez respondam os mais apressados. Mas o Professor Doutor Rui Sixpence Conzane, coordenador da revista ÁGORA, tem outra teoria: as revistas nascem de inquietações, conversas que não terminam e ideias que se recusam a ficar em silêncio. Algumas, como a ÁGORA, nascem até de um simples telefonema.

Foi assim que tudo começou, em 2023, quando recebeu uma chamada da jornalista Joana Macie. Do outro lado da linha, uma proposta acompanhada de entusiasmo: “Six, tenho um projecto. Gostava que fizesses parte dele”.
Conhecendo o percurso profissional de Joana Macie, com passagens pelo Diário de Moçambique, Agência de Informação de Moçambique (AIM), Jornal Notícias e Revista Ideal (fundada por ela), Sixpence imaginou que vinha aí mais uma aventura ligada ao jornalismo.
Mas, como confessou com humor, houve alguns segundos de apreensão. “Espero que não seja uma revista sobre casamentos… ou, pior ainda, sobre divórcios”, terá pensado.
A preocupação tinha fundamento, pelo menos na sua própria avaliação. Afinal, alguém que considera combinar uma gravata com um fato um exercício científico de elevada complexidade dificilmente estaria preparado para escrever editoriais sobre tendências para noivos. “A revista dificilmente sobreviveria ao segundo número”, brincou.
Felizmente, a proposta de Joana estava longe dos vestidos de noiva e dos dramas matrimoniais. O projecto era criar uma revista científica. O alívio chegou, mas não durou muito. Logo a seguir veio a segunda parte do convite: Six deveria assumir a coordenação editorial da publicação.
Há convites que chegam numa frase, mas pesam como uma biblioteca inteira. E este não foi aceite de imediato.
O académico pediu tempo para pensar. Não por falta de confiança na ideia, mas precisamente porque acreditava demasiado nela. Durante esse período, Joana Macie teve de responder a uma verdadeira bateria de perguntas: qual seria a missão da revista? Que país pretendiam servir? Que espaço ainda não existia no panorama editorial? E que diferença faria aquela publicação?

Foram quase três meses de perguntas, respostas e muita paciência. Sixpence reconhece, com alguma ironia, que, depois de sobreviver àquele interrogatório, Joana estava preparada para coordenar praticamente qualquer projecto científico no mundo.
Quando finalmente disse “sim”, percebeu que não estava apenas a aceitar um cargo. Estava a assumir a responsabilidade de cuidar de um sonho.
Mas havia ainda uma questão por resolver: o nome. Escolher o nome de uma revista, observou, é quase como escolher o nome de um filho. Escolhe-se uma palavra, mas deseja-se que ela tenha um destino. Foi assim que surgiu ÁGORA, uma palavra antiga, mas com uma missão bastante actual.
Na Grécia Antiga, a ágora era o espaço público onde as pessoas se encontravam para conversar, trocar ideias, discordar e participar na construção da vida colectiva. Era, por assim dizer, uma espécie de rede social da época, só que sem comentários anónimos, notificações permanentes ou discussões que começam por causa de uma fotografia.

A escolha não foi por acaso. A equipa queria uma revista que não se limitasse a distribuir certezas, mas que cultivasse perguntas. Afinal, as respostas podem envelhecer, mas as boas perguntas atravessam gerações.
Três anos depois, a aventura chega à sexta edição. E, embora seis números possam parecer uma contagem modesta, quem conhece os bastidores da investigação sabe que cada edição envolve muitas horas de leitura, revisões intermináveis, prazos apertados e uma boa dose de resistência.
No caso particular de Sixpence, há ainda um ingrediente indispensável: café. Tanto que, segundo brincou, já terá consumido quantidade suficiente para deixar qualquer cardiologista profundamente preocupado.
Nos bastidores da publicação, há também perguntas recorrentes. Quem financia a revista? E quanto ganham com isso?
O coordenador considera-as legítimas, mas prefere responder com outra pergunta: quanto vale uma ideia?
Até hoje, confessa, ainda não encontrou uma calculadora capaz de fazer essa conta. Há riquezas que simplesmente não cabem numa folha de Excel, e as ideias são uma delas.
Para Sixpence, os grandes projectos raramente começam com dinheiro. Começam com coragem. O dinheiro pode abrir portas, mas é a coragem que decide bater à primeira.

E, no caso da ÁGORA, essa coragem teve nome e rosto: Joana Macie, a jornalista que lançou o desafio inicial. A ela juntaram-se uma equipa comprometida, autores que partilharam o resultado das suas reflexões e investigações, revisores que asseguraram o rigor científico e parceiros que acreditaram na iniciativa.
É dessa combinação de vontade, conhecimento e colaboração que a revista continua a crescer.
No fundo, a ÁGORA nasceu de um telefonema, sobreviveu a três meses de perguntas e chegou à sexta edição com uma missão que vai muito além de publicar artigos. Nasceu para alimentar o pensamento, estimular o debate e recordar que pensar também é uma forma de prestar serviço público.