Dora Chipande: “Cabo Delgado carrega uma ferida tão grande que sangra até hoje”

Joana Macie

Artista plástica, activista dos Direitos Humanos e profissional ligada à protecção da infância, Doroteia Chipande, mas tratada no mundo profissional por Dora,  emocionou os participantes do lançamento da 6.ª edição da Revista ÁGORA ao recordar o massacre de mais de 50 jovens em Xitaxi, no distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, ocorrido em Abril de 2020. “Falar sobre Cabo Delgado é falar da minha província, do sofrimento de um lugar de Moçambique que carrega uma ferida tão grande que sangra até hoje”, afirmou, num depoimento marcado pela emoção.

Através de 15 obras de pintura, a artista procura devolver à memória colectiva uma tragédia que, segundo considera, não recebeu a devida atenção nacional. O convite da Revista ÁGORA para falar sobre Cabo Delgado, despertou em Dora Chipande mais do que entusiasmo. Representou uma oportunidade de dar voz a uma província. “Fiquei muito animada, mas não no sentido de animação. Vi naquele convite uma oportunidade de poder falar da minha província.

Artista plástica, com intervenção no combate aos crimes sexuais contra crianças, Dora Chipande trabalha há mais de seis anos na área humanitária, particularmente em Cabo Delgado, onde acompanha as dificuldades enfrentadas pelas populações deslocadas devido ao terrorismo.

Nesse percurso, diz ter testemunhado realidades e escutado histórias que continuam a perturbar-lhe o sono. Algumas dessas experiências ganharam forma através da arte. Outras permanecem como feridas difíceis de revisitar.

Foi precisamente por isso que, quando a equipa da ÁGORA a procurou para uma entrevista sobre a exposição Xitaxi, realizada em 2024, a artista confessou que não queria regressar àquele episódio da sua vida. A exposição representava uma memória demasiado dolorosa.

Xitaxi: o campo de futebol que se transformou num lugar de morte

uma das obras que retrata o massacre de Xitaxi.

Xitaxi é uma localidade do distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado. A 8 de Abril de 2020, mais de 50 jovens foram assassinados por terroristas, depois de recusarem integrar as fileiras do movimento armado.

Naquele dia, enquanto a região enfrentava mais um episódio de violência, um grupo de jovens saiu para jogar futebol. O que deveria ser um momento de convívio e alegria transformou-se numa tragédia.

Segundo o relato de Dora Chipande, os atacantes surpreenderam os jovens e exigiram que se rendessem e aderissem ao movimento terrorista. Perante a recusa, foram mortos no próprio campo de futebol. Outros membros da comunidade foram obrigados a assistir à violência. Alguns jovens foram decapitados e outros fuzilados. “Mais de 50 jovens morreram ali, naquele campo de futebol”, recordou.

A notícia circulou em grupos de WhatsApp de naturais e amigos de Cabo Delgado e chegou a alguns órgãos de comunicação internacionais. Contudo, na percepção da artista, o acontecimento recebeu pouca atenção dos meios de comunicação nacionais.

Mas, para Dora, Xitaxi não era apenas mais uma notícia sobre a violência em Cabo Delgado. Era uma tragédia que lhe tocava profundamente.

Anos antes do massacre, a artista tinha passado pela mesma localidade, numa deslocação profissional. Recorda-se de ter pernoitado naquela aldeia, de ter convivido com os seus habitantes e de uma mangueira debaixo da qual a sua equipa chegou a instalar um escritório de campanha, durante uma visita presidencial de Armando Guebuza.

Por isso, quando soube do massacre, a distância entre a notícia e a sua própria história desapareceu. Para explicar a dimensão dessa ligação, lançou um exercício de imaginação aos presentes na biblioteca: “Imaginem que estamos hoje aqui nesta biblioteca e, depois do nosso regresso, alguém nos diz que a biblioteca acabou de ser atacada e que tudo o que estava lá dentro foi queimado. A nossa primeira imagem seria a dos livros e das pessoas que aqui trabalham”.

Era assim que Dora sentia Xitaxi. Não conseguia olhar para aquele massacre como um acontecimento distante. Conhecia o lugar, tinha estado com aquelas pessoas e guardava recordações de uma comunidade que, entretanto, se transformara num cenário de morte e sofrimento.

Quinze obras para que a história não seja esquecida

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Foi dessa dor, mas também da necessidade de preservar a memória, que nasceu a decisão de transformar a tragédia em arte. “Decidi que deveria usar a minha arte para dar voz a estes mais de 50 mártires que decidiram dizer não”, explicou.

Na interpretação da artista, aqueles jovens recusaram aderir ao movimento terrorista porque não queriam hipotecar o futuro das próximas gerações. A sua decisão, tomada num momento de extrema vulnerabilidade, representou uma recusa em contribuir para a continuidade da guerra em Cabo Delgado. Dora sentiu que tinha uma responsabilidade: contar ao mundo o que tinha acontecido naquele dia.

A tarefa, porém, não foi simples. A artista deparou-se com a escassez de relatórios, fotografias e notícias que documentassem os acontecimentos. Para reconstruir a tragédia, recorreu a informações recolhidas junto de fontes ligadas às Forças de Defesa e Segurança que estiveram no terreno depois do ataque.

Três anos após o massacre, decidiu aprofundar a investigação e procurou o testemunho do então comandante-geral da Polícia da República de Moçambique, Bernardino Rafael, que esteve em Xitaxi após o ataque.

Foi a partir do seu relato que Dora produziu as 15 obras que integraram a exposição. Ao recordar a pergunta que lhe fez sobre o sentimento que experimentou ao chegar ao local da tragédia, a artista destacou a resposta do antigo comandante: “Foi uma tristeza muito profunda”, essa expressão deu origem a uma das obras da exposição, intitulada Tristeza Profunda.

Um embondeiro para guardar os que ficaram sem sepultura

Entre as 15 pinturas, há uma que permanece particularmente viva na memória de Dora Chipande: Descanse em Paz. A obra representa uma lápide colocada debaixo de um embondeiro, uma escolha carregada de simbolismo e profundamente ligada às histórias que a artista escutou durante o seu trabalho humanitário em Cabo Delgado.

O embondeiro, árvore associada à memória, à protecção e a diferentes significados espirituais nas culturas moçambicanas, surge como guardião dos que partiram.

A imagem nasceu de uma realidade dolorosa: a dificuldade de muitas famílias em sepultar os seus entes queridos devido à rapidez e à violência dos ataques. Em alguns casos, as famílias nem sequer sabem se os seus familiares morreram ou onde poderão encontrar os seus restos mortais.

Para essas famílias, a ausência de uma sepultura representa também a ausência de um lugar onde possam chorar, recordar e prestar homenagem aos seus mortos.

“Era uma forma de dizer: descansem em paz, aqueles que ficaram para trás. Este embondeiro irá sempre guardar-vo”, explicou.

Naquela imagem, a lápide não representa apenas a morte. Representa também a memória de quem não teve um funeral, de quem permanece sem identificação e de quem continua à espera de um lugar no silêncio e na dignidade de uma despedida.

Em Xitaxi, mais de 50 jovens perderam a vida. Através da pintura, Dora procura impedir que também percam o seu lugar na memória colectiva. Porque, enquanto houver alguém disposto a contar a história, haverá uma forma de resistir ao esquecimento.

O depoimento de Dora Chipande terminou como começou: com Cabo Delgado no centro da sua inquietação. Mas deixou também uma mensagem que ultrapassa os limites da exposição artística: há histórias que não podem ser reduzidas a números, ataques ou estatísticas.