Chitsondzo celebra a vida com quem cuida da morte

Aos 65 anos, Roberto Maximiano Chitsondzo, músico conceptuado moçambicano, celebra a vida olhando também para aqueles que lidam diariamente com o seu último limite: a morte.

Roberto Chitsondzo chegou aos 65 anos de vida, na semana passada, carregando histórias, memórias e experiências acumuladas ao longo de décadas. Mas há uma profissão que ocupa um lugar particularmente especial na sua forma de olhar para a sociedade: a dos coveiros.

São homens e mulheres que trabalham quase sempre longe dos holofotes. Não aparecem nas grandes celebrações, raramente recebem aplausos e, muitas vezes, só são lembrados quando alguém morre.

Chitsondzo olha para eles de outra maneira. o coveiro não é simplesmente aquele que abre uma sepultura e acompanha o corpo até à sua última morada. É também alguém que presta um serviço essencial à dignidade humana num dos momentos mais difíceis da existência.

Todos os dias, os coveiros convivem com a morte. Enquanto uns procuram afastar-se dela, eles aproximam-se dela profissionalmente para garantir que aqueles que partiram tenham uma despedida digna.

É talvez essa dimensão invisível da profissão que desperta a admiração de Roberto Chitsondzo. Aos 65 anos, a sua homenagem aos coveiros pode ser entendida como uma homenagem a todos aqueles que fazem trabalhos indispensáveis, mas que permanecem quase sempre esquecidos pela sociedade.

Porque uma sociedade também se mede pela forma como trata os seus mortos — e pela forma como respeita aqueles que ajudam a dar-lhes uma última morada.

O coveiro conhece uma realidade que a maioria das pessoas prefere evitar: a morte é inevitável e não escolhe profissão, estatuto social, riqueza ou poder.

No cemitério, desaparecem muitas das diferenças que estruturam a vida. E é ali que o coveiro desempenha o seu papel. Sem discursos, sem câmaras e sem aplausos, ele ajuda a fechar um capítulo da vida de alguém e a permitir que a família possa começar o difícil processo do luto.

A admiração de Chitsondzo pelos coveiros ganha, assim, um significado que ultrapassa a própria profissão.

Roberto Chitsondzo entre a música e a vida

Roberto Chitsondzo, um dos nomes ligados à história da música moçambicana, chegou aos 65 anos com uma carreira construída ao longo de décadas, marcada pela música, composição e intervenção social.

Nascido em Xai-Xai, Chitsondzo começou a aproximar-se da música ainda jovem. Em 1977 iniciou o seu percurso artístico, passando por diferentes grupos até chegar, em 1984, à Ghorwane, uma das bandas mais importantes da música moçambicana.

Na Ghorwane, ao lado de músicos como Pedro Langa e Zeca Alage, ajudou a construir uma identidade musical que valorizava os ritmos moçambicanos e, ao mesmo tempo, abordava questões sociais. Nas suas canções aparecem temas como a paz, a pobreza, a educação, o amor e os problemas enfrentados pela sociedade.

Além do trabalho colectivo, Chitsondzo desenvolveu também uma carreira a solo. Em 2017 lançou “Kwiri”, o seu primeiro álbum a solo, acompanhado por um livro sobre a sua vida e obra.

Aos 65 anos, o músico continua ligado à arte e à reflexão sobre a condição humana. A sua admiração pelos coveiros revela uma outra dimensão da sua personalidade: o reconhecimento por pessoas que exercem um trabalho discreto, mas essencial, garantindo dignidade aos mortos e conforto às famílias.

Entre palcos, canções e histórias de vida, Roberto Chitsondzo chega aos 65 anos não apenas como músico, mas como um artista que transformou experiências e preocupações da sociedade moçambicana em música.