Violência online, assédio e conteúdos falsificados por inteligência artificial estão a afastar mulheres da política, do jornalismo e de outros espaços de decisão.
A violência digital e o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial, incluindo os chamados deepfakes, estão a contribuir para o afastamento de mulheres da vida pública e política, revela um novo relatório da ONU Mulheres.
Intitulado “Tipping Point: Online Violence Impacts, Manifestations and Redress in the AI Age”, o estudo analisou as experiências de 641 profissionais de 119 países e alerta para o impacto crescente da violência online contra mulheres que ocupam ou procuram ocupar espaços de visibilidade e poder.
Segundo o relatório, jornalistas, ativistas, defensoras dos direitos humanos e outras mulheres com intervenção na esfera pública são frequentemente alvo de campanhas coordenadas destinadas a intimidá-las, desacreditá-las e silenciar as suas vozes.
A evolução das ferramentas de inteligência artificial tornou mais fácil a produção e disseminação de conteúdos falsos, incluindo imagens e vídeos íntimos manipulados sem o consentimento das vítimas.
Entre as participantes do estudo, 27% relataram ter sofrido assédio através de mensagens, enquanto 12% tiveram imagens íntimas partilhadas sem consentimento e 6% foram alvo de deepfakes.
O relatório aponta ainda consequências significativas para a saúde mental das vítimas. Cerca de 24% relataram ansiedade ou depressão associadas à violência digital sofrida, enquanto 13% foram diagnosticadas com transtorno de stress pós-traumático (TEPT).
Os efeitos da violência online não ficam limitados ao ambiente virtual. De acordo com o estudo, 41% das participantes passaram a autocensurar-se nas redes sociais, enquanto 19% reduziram a sua actividade profissional para evitar novos episódios de abuso.
Para os investigadores, esse comportamento representa um risco para a participação das mulheres na vida pública, uma vez que o medo de ataques pode levá-las a abandonar espaços de debate, influência e tomada de decisão.
A pesquisadora Lea Hellmueller, chama a atenção para situações em que as próprias autoridades aconselham mulheres vítimas de violência digital a abandonar os seus cargos ou deixar as redes sociais, transferindo para as vítimas a responsabilidade pela sua própria segurança.
Justiça ainda oferece respostas limitadas
O relatório também chama atenção para a dificuldade de responsabilizar os autores dos ataques. Embora cerca de um quarto das mulheres entrevistadas tenha recorrido à polícia, apenas 15% dessas denúncias resultaram em alguma medida legal, segundo os dados apresentados no estudo.
A coautora Pauline Renaud defende o reforço da preparação de agentes da Lei e Ordem, policia e magistrados para lidar com casos de violência digital, evitando abordagens que responsabilizem as vítimas.
O estudo também aponta para a necessidade de maior responsabilização das empresas de tecnologia e de medidas regulatórias capazes de enfrentar o uso abusivo da inteligência artificial.
Para os investigadores, a expansão das ferramentas de IA e a facilidade com que podem ser utilizadas para fabricar conteúdos falsos criam novos desafios para a proteção das mulheres e para a sua participação plena na vida pública.
O relatório conclui que combater a violência digital contra mulheres exige respostas que envolvam governos, sistema de justiça, plataformas tecnológicas e sociedade civil, de forma a garantir que a tecnologia não seja utilizada como instrumento de intimidação e silenciamento.
O que são Deepfakes
São conteúdos falsos, principalmente vídeos, fotografias ou áudios, criados ou manipulados com inteligência artificial para fazer parecer que uma pessoa disse ou fez algo que, na realidade, não aconteceu.
Exemplo: alguém pode usar IA para colocar o rosto de uma mulher num vídeo íntimo falso, fazendo parecer que ela aparece naquele vídeo.
Também pode acontecer com áudio, imitando a voz de uma pessoa para fazê-la parecer dizer determinadas palavras.
👉 Em linguagem jornalística, pode escrever: “conteúdos falsificados ou manipulados por inteligência artificial (deepfakes)”. Isso ajuda o leitor a entender o termo na primeira vez que aparece