Por Florentino Dick Kassotche
Ensinar sempre me pareceu uma travessia interminável: ora um rio largo, de águas serenas ou revoltas, ora uma estrada infinita ladeada por árvores que mudam de cor a cada estação. O rio traz correntes que testam a coragem; a estrada revela o tempo que se escoa e as etapas sucessivas da vida escolar. Entre margens e estações, compreendi que a docência é uma viagem sem fim, feita de desafios e recompensas, de encontros e despedidas, de sementes lançadas ao vento que, um dia, haverão de florescer. Cada aula era como remar contra a corrente, cada explicação como lançar uma ponte sobre o abismo da ignorância, cada palavra como uma pedra lançada no lago da consciência, criando círculos que se expandiam para além do que os olhos alcançam.
Atravessei as águas tranquilas das primeiras classes e enfrentei as marés agitadas do ensino superior. Caminhei desde os degraus frágeis da infância escolar até às salas solenes da universidade, mas foi no meio do percurso — nas sétimas, oitavas e nonas classes — que encontrei a verdadeira pulsação da sala de aula. Ali, diante de jovens que começavam a erguer os primeiros andaimes do pensamento, percebi que o professor não é apenas guia de conteúdos, mas jardineiro de consciências, semeador de futuros. O universitário já chega com raízes firmes e tronco erguido; o aluno da sétima classe, porém, é como uma planta tenra que ainda busca a direcção do sol. É nesse instante delicado que a mão do mestre se torna decisiva: regar com palavras, podar com paciência, abrir horizontes como quem abre janelas para o mar ou lança pontes sobre o rio, mostrando que a palavra é chave, espelho, palco, ponte e também asa. E eu, ao ver aqueles olhos inquietos, sentia que cada explicação era mais do que lição: era gesto de esperança, era sopro de vida.
Na disciplina de Língua Portuguesa, o currículo nunca foi apenas norma ou conjunto de conteúdos. Era mapa e bússola, território e travessia. A leitura surgia como janela que se abre para mundos invisíveis; a escrita, como espelho onde cada aluno se reconhece pela primeira vez; a oralidade, como palco onde timidez e coragem se enfrentam; e a gramática, embora rígida, como alicerce invisível que sustenta o edifício da linguagem. A literatura, por sua vez, era mar e oceano, onde navegávamos juntos por contos moçambicanos, poemas lusófonos e tradições orais que pulsavam como tambores ancestrais, lembrando-nos que a palavra nasce do corpo, da memória e da comunidade.
Cada ciclo tinha o seu tom próprio: na sétima classe, tropeços e descobertas; na oitava, o olhar crítico que se abria como janela para além da paisagem imediata; na nona, edifícios de pensamento erguidos com argumentação, projectos escritos e leituras que revelavam o pulsar da terra e dialogavam com o mundo. E eu, ao acompanhar cada etapa, sentia que o crescimento deles era também o meu, como se cada frase escrita fosse raiz que me prendia mais à terra e cada leitura fosse asa que me lançava mais alto.
Na verdade, eu me espelhava nos meus alunos. Cada dificuldade deles transportava-me para o meu próprio tempo de estudante, para os meus dias bons e dias maus, para as matérias preferidas e as indigestas. Ser professor é, duplamente, ser aluno: alguém que ensina enquanto aprende e que, ao ensinar, se recorda de como aprendeu.
Recordo-me de episódios isolados, fragmentos de sala de aula que ainda hoje ecoam como pequenas melodias da aprendizagem. Cada aluno trazia consigo a marca da sua língua materna, e era nela que se escondiam as confusões, os tropeços e os risos. Havia os que confundiam o d com o t, os que trocavam o f pelo v, os que deixavam o s escorregar para o z. E eu, paciente jardineiro de sons, inventava exercícios que eram quase jogos de palavras, quase poemas travestidos de lições. Para os que tropeçavam no s, eu propunha frases que pareciam encantamentos: “são sucessos que sucedem sucessivamente na sociedade socialista soviética”. Para os que se atrapalhavam com o r, fazia ecoar o trava-línguas que parecia tambor: “o rato roeu a rolha do rei da Rússia ratoneira rapidamente”. E havia ainda os tigres, sempre tristes e sempre três, que rugiam nas bocas dos alunos: “três tristes tigres”. Cada repetição era tentativa de domar o som, de transformar tropeço em música, de fazer da língua uma ponte entre mundos. Alguns, ao pronunciar o lh, deixavam escapar dois l, como se o som fosse demasiado delicado para caber numa única letra. Outros inventavam palavras novas, como aquele aluno da sétima classe, eufórico ao contar suas férias, que disse com toda a convicção: “os guardos da casa do meu pai”, acreditando que o masculino de guarda só podia ser guardo. Ri com ternura, não para zombar, mas para celebrar a criatividade espontânea que brota quando a língua ainda é terreno em construção. Ali estava a prova de que aprender é também inventar, que errar é abrir caminho para o inesperado.
Do ouvido apurado, passei a escutar a língua como quem escuta um rio. A partir dos meus alunos, comecei a observar construções tidas como tipicamente moçambicanas — não como desvios, mas como sinais de vida. São expressões que nascem do uso quotidiano da palavra e do encontro íntimo entre o português e as línguas que nos habitam desde antes da escrita. Ouvi dizer “peço horas”, no lugar de “que horas são”, como se o tempo fosse algo que se pede com cuidado; “passei da tua casa”, em vez de “passei por tua casa”, porque a proximidade, entre pessoas, pesa mais do que o trajeto; “fui à tua casa e não te encontrei”, dito sem embaraço algum, pois assim a frase respira melhor na boca do pronunciante. Essas formas circulavam livres entre alunos, nos intervalos, nos corredores e mesmo no decorrer das aulas. Não pediam licença à gramática normativa, mas caminham com inteira legitimidade dentro do nosso modo de falar e de viver a língua portuguesa. O mesmo acontece com os nomes próprios, que se deixam moldar pela musicalidade local, dobrando-se à lógica fonética das línguas que nos ensinaram primeiro a nomear o mundo. Joaquim transforma-se em Joanquim, Francisco pode soar Françisco — não por ignorância da forma consagrada, mas por apropriação, por intimidade, por acomodação dos sons à boca que os chama. Nessas pequenas variações, a língua revela o que de mais verdadeiro possui: a sua condição viva, mestiça, atravessada pela oralidade e pela convivência cultural. É daí que concluo que essas construções e pronúncias não empobrecem o idioma; antes pelo contrário, reafirmam uma identidade linguística própria do falante moçambicano. É o português moçambicano a afirmar-se, carregado de história, afecto e pertença, mostrando que a língua não é um bloco rígido, mas um corpo em movimento: um corpo que se transforma conforme quem o fala, conforme quem o vive e em seus contextos sócio-vivenciais.
Havia tardes em que a sala se transformava em palco de leituras em voz alta: cada aluno, com o livro nas mãos, lia como quem descobre o próprio coração. Uns liam com pressa, atropelando sílabas como quem corre sem olhar para trás; outros pausavam demais, como se cada palavra fosse pedra pesada a ser carregada. E eu, sentado diante deles, via que a leitura era mais do que decifrar letras: era aprender a respirar com o texto, a dar corpo à voz, a transformar silêncio em música. Nas redações, surgiam mundos inesperados: o mar descrito por quem nunca o tinha visto, a aldeia narrada com galinhas e cabanas de palha, cartas imaginárias para heróis da história, diálogos entre rios e montanhas. Cada redação era uma janela aberta para dentro da alma, e eu, leitor privilegiado, recolhia essas visões como quem recolhe conchas na praia. Nos debates, a sala fervia: uns tímidos, outros audaciosos, e ali nascia o pensamento crítico. Um aluno disse que as palavras eram pedras lançadas contra o silêncio; outro afirmou que escrever era plantar árvores cujo fruto só se vê depois de muitos anos. E eu sorria, porque era exactamente isso que eu fazia todos os dias: plantar árvores invisíveis, esperando que um dia dessem sombra e frutos.
As matérias exigiam testes, muitas vezes reduzidos à memorização mecânica, como se o saber fosse apenas acumular palavras em gavetas da memória. Mas eu nunca aceitei que a avaliação fosse apenas um número frio, uma cifra sem alma. Via em cada esforço uma centelha de futuro, e por isso nunca atribuí abaixo de sete valores. Avaliar era reconhecer trajetórias, valorizar passos, tropeços e tentativas. Contar braçadas no rio não bastava; era preciso compreender a coragem de quem se lançava às águas, mesmo sem saber se chegaria à outra margem. Cada prova era mais do que um exercício: era testemunho de uma luta íntima, era mapa de uma travessia, era espelho de uma vontade que se recusava a desistir. Contudo, havia sombras que se infiltravam nos corredores da escola como vento frio que apaga velas. Nos conselhos de notas surgiam listas secretas, nomes que passavam não pelo mérito, mas pelo peso do dinheiro, pelo abuso de relações privilegiadas ou pelo prestígio herdado. Criou-se então uma máxima cruel, repetida como sentença: o aluno passa porque sabe; o aluno passa porque é conhecido; o aluno passa porque subornou. E, em sentido inverso, o aluno reprova porque não sabe; o aluno reprova porque não é conhecido; o aluno reprova porque não subornou. O suborno, palavra antiga e persistente, tinha e ainda tem muitas faces: monetária, sexual, social e, por vezes, política. Era como uma sombra que se estendia sobre os cadernos, apagando o brilho das palavras escritas com esforço. Eu via colegas transformarem a sala de aula em mercado, onde notas eram moeda e futuros eram negociados como mercadorias. E cada mancha era uma ferida aberta no corpo da educação, uma cicatriz projectada no futuro da nação.
Eu sentia que cada injustiça era como uma rachadura no edifício da esperança. O aluno que estudava noites inteiras, que lia à luz fraca de uma lamparina, que escrevia com letra trêmula, mas convicta, muitas vezes via o seu esforço apagado por um nome que constava na lista dos privilegiados. E eu, ao testemunhar tais práticas, carregava dentro de mim uma mistura de indignação e tristeza, como quem vê uma árvore ser cortada antes de dar fruto. Mas mesmo diante das sombras, eu insistia em acreditar que a educação podia ser luz. Cada palavra lançada em sala de aula era semente, e mesmo em solo árido havia sempre a possibilidade de florescer. Avaliar, para mim, era também proteger: proteger o sonho do aluno pobre, proteger a dignidade do esforço, proteger a chama que tremia, mas que não se apagava. Ensinar, para ser menos poético e mais realista, é também resistir, é também lutar contra o peso invisível das injustiças, é acreditar que, apesar das manchas, cada aluno ainda carrega dentro de si um oceano por descobrir e uma estrela por acender. E ser professor, ainda acredito, é caminhar sobre uma corda estendida entre a esperança e a realidade. É acreditar que, apesar das injustiças, cada palavra lançada em sala de aula é semente e que, mesmo em solo árido, haverá sempre a possibilidade de florescer. Ensinar é atravessar rios e estradas, plantar árvores e lançar pontes, acreditar que cada aluno carrega dentro de si um oceano por descobrir e uma estrada por percorrer. E eu, mesmo cansado, mesmo ferido, continuo a lançar sementes, porque sei que algumas, mesmo esquecidas, germinarão em silêncio.
Hoje, orgulho-me ao ver muitos reconhecerem o nosso trabalho conjunto, o de ensinar e o de aprender: confirmando que, de facto, ensinando também se aprende.
No meu tempo, Língua Portuguesa e Matemática eram disciplinas nucleares, pilares sobre os quais se erguia o edifício da escola, e eu regia uma delas. Educado na honestidade, tornei-me dor de cabeça para estudantes e colegas candongueiros, que se faziam passar por familiares enquanto cobravam valores aos alunos. Era um teatro de máscaras: os “primos”, “sobrinhos” e “amigos” que vinham pedir favores não passavam de clientes disfarçados, e eu, ao recusar, tornava-me o vilão da peça, aquele que não se dobrava ao enredo corrompido que se repetia nos bastidores da educação. Por causa dessa minha rectidão, abandonei o conselho de notas na Escola Secundária da Maxaquene, cansado do assédio constante, inclusive da própria direcção. Lembro-me do dia em que, exausto de ser pressionado, peguei nas pautas e entreguei-as ao Director, dizendo-lhe que decidisse o destino certo da escola sob o seu comando. Foi um gesto simples, mas carregado de peso: como quem devolve ao rio as águas que não quer contaminar, como quem recusa ser cúmplice da lama que ameaça turvar a corrente. No ano seguinte, o meu nome não constava, evidentemente, na lista de professores da escola. Há preços que se pagam por qualquer que seja a decisão, e eu paguei pela minha. No entanto, vale a pena sentir a liberdade a coçar o pensamento individual contra os zumbidos colectivos que ajudam a afundar uma pátria. Ao ser afastado, percebi que a dignidade é muitas vezes solitária, mas nunca inútil. A solidão da honestidade é como uma árvore isolada no campo: pode parecer frágil, mas é nela que os pássaros pousam, é nela que a sombra se oferece, é nela que o vento canta. E eu, mesmo fora da lista, mesmo excluído dos corredores da Maxaquene, carregava dentro de mim a certeza de que ensinar não é apenas estar numa sala de aula, mas manter viva a chama da palavra, a coragem da rectidão, a fé de que cada gesto honesto é semente lançada no futuro.
A dignidade, ainda que solitária, é sempre fértil. E por ironia do destino, enquanto a Maxaquene prescindia dos meus serviços, a Escola Alvorada abria-me as portas e convidava-me a integrar a sua equipa docente. Era como se uma nova margem se oferecesse ao viajante cansado, como se outra estrada se abrisse diante dos meus passos. Foi lá que conheci Mbotera, mulher de quarenta e poucos anos, mas que trazia consigo a frescura de uma juventude que parecia não se apagar. Sua presença iluminava os corredores, e sem ela, as minhas aulas não tinham o fogo académico que se desejava.
Mbotera tornou-se inspiração e motivação pedagógica, razão de poemas que passaram a habitar os meus cadernos de professor-estudante. Cada gesto seu era como metáfora viva: o sorriso que se abria era janela para o mar, o olhar que se demorava era ponte lançada sobre o rio. E eu, que tantas vezes havia resistido às pressões e recusado listas secretas, percebia que também a educação é feita de fragilidades humanas, de paixões que se infiltram no quotidiano da sala de aula.
Na Alvorada, as práticas de suborno continuavam a atravessar os corredores, como sombras persistentes. Já não eram apenas listas ocultas ou favores disfarçados: eram negociações silenciosas, trocas de notas por privilégios, acordos que se insinuavam entre colegas. E há quem esperava que eu, o homem que abandonara o conselho da Maxaquene por dignidade, estivesse agora envolvido nesse jogo, negociando com outros para que Mbotera passasse de classe em troca das minhas próprias notas. A ser isso, seria uma contradição dolorosa: como é que o mesmo professor que se recusara a manchar as pautas se deixaria seduzir pela beleza de uma aluna, mesmo que ela incendiasse o meu coração?? E Mbotera teve que repetir o ano académico. Eu reconhecia nela o fogo que mantinha acesa a chama da sala de aula, e, ao escrever poemas inspirados nela, sentia que cada verso era também lição, cada palavra era também semente, mas mesmo assim, o compromisso com a intelectualidade estava acima de questões emócio-passionais. A honestidade, ainda que dolorosa, era o alicerce que sustentava a minha travessia.
Reconhece-se que a prática do suborno vem de longe, antiga como certas sombras que aprenderam a caminhar pelos corredores da educação. Ela insiste, atravessa portas, senta-se em silêncio nos fundos das salas, como se fosse parte do mobiliário. Mas algo precisa de ser feito e tudo começa nas famílias, esse lugar primeiro onde se manufactura o disco duro do futuro. Sem famílias fortes, a escola reduz-se a edifício; sem professores íntegros, a sala de aula é apenas espaço; sem alunos motivados, o conhecimento transforma-se em letra morta, empilhada, sem respiração.
E assim, entre luzes e sombras, entre rios que correm e estradas que se bifurcam, entre a honestidade que resiste e a fragilidade que vacila, as minhas memórias escrevem-se como recordações inacabadas. São páginas que se confundem com sonhos, cicatrizes que aprendem a conviver com a esperança, palavras que, de tanto serem ditas com fé, acabam por criar asas.
Continuo a acreditar que ensinar foi e é a minha forma mais íntima de afirmar que o amanhã pode ser melhor; que cada aluno carrega dentro de si não apenas um oceano por descobrir, mas também uma estrela por acender.
E eu, professor de várias disciplinas ao longo da vida académica, sigo lembrando-me, e lembrando aos outros, que o sonho é asa, e que voar é sempre possível, mesmo quando o céu parece fechado.
Nisso, vamos voar!
Florentino Dick Kassotche