Fatima  El Mansouri torna-se primeira mulher a chefiar o Governo de Marrocos

Nomeação feita pelo Rei Mohammed VI abre nova etapa política no país; líder do Partido Autenticidade e Modernidade terá agora de formar uma coligação governamental e responder a fortes expectativas sociais, económicas e juvenis

Rabat, 29 de Setembro de 2026 — O Rei Mohammed VI nomeou esta terça-feira Fatima Ezzahra El Mansouri, coordenadora da liderança colectiva do Partido Autenticidade e Modernidade (PAM), para o cargo de Chefe do Governo de Marrocos, encarregando-a de formar o novo Executivo.

A decisão foi anunciada pelo Ministério da Casa Real, Protocolo e Chancelaria depois de uma audiência realizada no Palácio Real, em Rabat. A nomeação, feita ao abrigo do artigo 47.º da Constituição marroquina, ocorre depois das eleições legislativas de 23 de Setembro, nas quais o PAM obteve o maior número de lugares no Parlamento.

A escolha de El Mansouri tem também um significado histórico: ela torna-se a primeira mulher a ocupar a chefia do Governo de Marrocos e a segunda mulher a exercer a função de primeira-ministra num país árabe, depois de Najla Bouden ter chefiado o Governo da Tunísia entre 2021 e 2023.

Uma nomeação com peso histórico

Falando à imprensa depois da audiência com o Rei, El Mansouri classificou a sua nomeação como um “momento histórico” para Marrocos e afirmou que o facto de uma mulher assumir pela primeira vez a liderança do Governo constitui motivo de orgulho para as mulheres marroquinas.

A nova Chefe do Governo afirmou ainda que recebeu do Soberano orientações para a gestão da próxima fase e anunciou que iniciaria imediatamente consultas dentro do PAM e com as restantes forças políticas.

Segundo El Mansouri, o objectivo será apresentar um Governo capaz de responder às expectativas do Rei e dos cidadãos, com particular atenção às preocupações dos jovens. A dirigente prometeu igualmente um programa baseado em “soluções realistas e concretas”.

A declaração coloca desde já a formação do novo Executivo como a primeira grande tarefa política da nova Chefe do Governo.

 

PAM venceu as legislativas, mas terá de procurar parceiros

A nomeação de El Mansouri resulta directamente da configuração produzida pelas eleições legislativas de Setembro. O Partido Autenticidade e Modernidade conquistou 97 dos 395 lugares da Câmara dos Representantes, ficando à frente do Reagrupamento Nacional dos Independentes (RNI), que obteve 66 lugares, e do Partido Istiqlal, que conquistou 65. O resultado não confere ao PAM maioria absoluta, tornando necessária a negociação com outras forças políticas para constituir uma maioria parlamentar e formar um Governo.

Esta realidade deverá transformar as próximas semanas num período de negociações políticas intensas. A nova Chefe do Governo terá de conciliar a composição do Executivo, a distribuição das pastas ministeriais e as prioridades programáticas com os interesses dos partidos que poderão integrar a futura maioria.

O sistema constitucional marroquino estabelece que o Rei nomeia o Chefe do Governo a partir do partido que chega em primeiro lugar nas eleições para a Câmara dos Representantes. É nesse enquadramento que Mohammed VI designou El Mansouri para conduzir a formação do novo Executivo.

De autarca de Marraquexe a chefe do Governo

A ascensão de Fatima Ezzahra El Mansouri ao cargo de Chefe do Governo encerra uma trajectória política construída ao longo de quase duas décadas. Nascida em Marraquexe, a 3 de Janeiro de 1976, El Mansouri é advogada de formação. Estudou Direito Privado na Universidade Mohammed V, em Rabat, obteve um mestrado em Direito dos Contratos Empresariais na Universidade de Montpellier, em França, e frequentou estudos de Direito Anglo-Saxónico na Pace University, nos Estados Unidos. Está inscrita na Ordem dos Advogados de Marraquexe desde 2005.

A sua entrada na política ocorreu em 2007, através do Movimento de Todos os Democratas. No ano seguinte, participou na fundação do Partido Autenticidade e Modernidade, formação política criada em 2008 e que viria a tornar-se uma das principais forças do sistema partidário marroquino.

Em 2009, El Mansouri foi eleita presidente do Conselho Municipal de Marraquexe, tornando-se a primeira mulher a exercer a presidência da Câmara da cidade. Ocupou o cargo até 2015 e regressou à liderança municipal em 2021.

Paralelamente, construiu uma carreira parlamentar. Foi eleita deputada em 2011 e reeleita em 2016, acumulando experiência na política local e nacional.

Entre 2015 e 2024, presidiu ao Conselho Nacional do PAM. Desde 2024, passou a coordenar a liderança colectiva do partido, posição que ocupava quando foi indicada para chefiar o Governo.

Cinco anos no Governo

A experiência governamental de El Mansouri começou em Outubro de 2021, quando foi nomeada ministra do Planeamento Territorial Nacional, Urbanismo, Habitação e Política Urbana.

A pasta colocou-a no centro de algumas das questões estruturais do desenvolvimento marroquino: ordenamento do território, urbanização, habitação, desenvolvimento das cidades e políticas relacionadas com o crescimento urbano.

A experiência ministerial é apontada como uma das credenciais que sustentam agora a sua passagem para a chefia do Executivo.

A combinação entre experiência autárquica, parlamentar, partidária e governamental distingue a trajectória da nova Chefe do Governo, que passou por diferentes níveis da administração pública antes de chegar à liderança do Executivo.

Uma mulher com experiência política e municipal

A carreira de El Mansouri ganhou particular visibilidade através da sua experiência em Marraquexe.

A cidade é um dos principais centros económicos, turísticos e culturais de Marrocos, e a gestão municipal colocou a dirigente diante de questões directamente relacionadas com urbanização, infra-estruturas, habitação, turismo e desenvolvimento urbano.

A sua ligação à governação local também se estendeu a organizações internacionais de autarcas. É membro da Associação Internacional de Autarcas Francófonos (AIMF) e vice-presidente da Associação Marroquina de Presidentes de Conselhos Municipais, segundo a biografia oficial divulgada após a nomeação.

Em 2014, a revista Forbes incluiu El Mansouri entre as 20 jovens mulheres consideradas mais influentes de África e, no mesmo ano, ela foi nomeada Young Global Leader.

A questão da juventude no centro da nova agenda

A formação do novo Governo ocorrerá num contexto em que as questões sociais e económicas, particularmente entre os jovens, constituem uma das principais áreas de atenção.

A participação eleitoral nas legislativas de Setembro foi de cerca de 38%, segundo dados citados pela imprensa internacional, um indicador que deverá alimentar o debate sobre participação política e confiança nas instituições.

A nova Chefe do Governo reconheceu explicitamente a dimensão das expectativas da população jovem, afirmando que o futuro Executivo deverá desenvolver respostas concretas para as suas preocupações.

Entre os temas que estarão sob pressão política encontram-se o emprego, rendimento, acesso a serviços públicos, habitação e perspectivas económicas para a população jovem.

Neste contexto, a promessa de El Mansouri de apresentar “soluções realistas e concretas” será uma das principais referências para avaliar o programa do futuro Executivo.

O desafio económico e social

A nova administração assumirá igualmente responsabilidades num período de grandes investimentos e transformação económica em Marrocos.

O país prepara-se para acolher, juntamente com Portugal e Espanha, o Mundial de Futebol de 2030, projecto que envolve grandes investimentos em infra-estruturas, transportes, turismo, equipamentos desportivos e desenvolvimento urbano.

A dimensão desses investimentos acrescenta importância à futura composição do Governo e à coordenação das políticas públicas.

Ao mesmo tempo, persistem desafios relacionados com emprego, custo de vida, serviços públicos e inclusão económica. A nova liderança terá, por isso, de conciliar a agenda de modernização e investimento com as expectativas sociais internas.

Uma coligação será decisiva

Embora o PAM tenha ficado em primeiro lugar nas legislativas, a sua bancada está longe dos 198 lugares necessários para uma maioria absoluta na Câmara dos Representantes.

A construção da maioria parlamentar será, portanto, uma das primeiras provas políticas da nova Chefe do Governo.

El Mansouri já sinalizou disponibilidade para dialogar com as restantes forças políticas. A composição da futura coligação poderá determinar não apenas a distribuição das principais pastas ministeriais, mas também a orientação do programa governamental.

O desafio será particularmente relevante porque os partidos que poderão integrar a maioria têm diferentes bases eleitorais, prioridades políticas e interesses institucionais.

A capacidade de negociação de El Mansouri será, consequentemente, um elemento central da formação do novo Executivo.

Uma nova etapa para a representação feminina

A nomeação tem ainda uma dimensão que ultrapassa a política partidária. Ao tornar-se a primeira mulher a chefiar o Governo marroquino, El Mansouri passa a ocupar uma posição de referência na representação feminina nas instituições políticas do país.

A própria dirigente colocou essa dimensão no centro da sua primeira intervenção pública depois da nomeação, afirmando que a decisão representa uma mensagem para as mulheres marroquinas e um incentivo à sua participação na construção da sociedade.

A experiência de El Mansouri não surge, contudo, de uma trajectória exclusivamente simbólica. Antes da chefia do Governo, ela acumulou responsabilidades electivas, partidárias e executivas durante quase 20 anos — desde a administração municipal de Marraquexe até ao Governo central.

O que acontece agora?

A nomeação de El Mansouri não encerra o processo de formação do Governo. Pelo contrário, abre uma nova fase.

A Chefe do Governo terá de realizar consultas com os partidos políticos, definir a estrutura do Executivo, negociar a composição da maioria parlamentar e apresentar os nomes dos ministros para aprovação nos termos constitucionais.

O primeiro teste será, portanto, político: construir uma maioria governamental funcional a partir de um Parlamento fragmentado.

O segundo será programático: transformar as promessas de soluções concretas em prioridades governamentais e medidas executáveis.

E o terceiro será social: responder às expectativas de uma população que, segundo os dados eleitorais, revelou uma participação relativamente baixa nas legislativas e cuja juventude é apontada pela própria nova Chefe do Governo como um dos principais grupos a que o próximo Executivo deverá responder.

Um momento de transição

A ascensão de Fatima Ezzahra El Mansouri representa, assim, uma mudança simultaneamente política, institucional e simbólica em Marrocos.

Politicamente, o PAM passa a liderar o processo de formação do Governo depois de vencer as legislativas. Institucionalmente, El Mansouri terá de transformar a vitória eleitoral numa maioria parlamentar capaz de sustentar o Executivo. E, no plano da representação, a sua nomeação coloca pela primeira vez uma mulher no comando do Governo marroquino.

Para já, a nova Chefe do Governo tem uma tarefa imediata: formar uma equipa governamental e apresentar um programa que responda às prioridades definidas para a próxima fase do país.

As próximas negociações partidárias deverão determinar a composição do Executivo e dar a primeira indicação sobre a orientação política da nova administração.