Aos que acreditaram antes de entender.
Aos que lutaram sem garantias.
Aos que ainda sonham, mesmo cansados.
Tenho acompanhado a nova onda da militância, em que ser da FRELIMO é automaticamente conotado com a corrupção, o enriquecimento ilícito e tantas outras coisas que em nada dignificam quem nelas se revê. E eu, que convivo com muita gente sem me importar com as suas crenças, origens, etnias ou graus académicos, tenho sido confrontado, com frequência, com a mesma pergunta: “Tu ainda és da FRELIMO?” De tantas pessoas que já me fizeram essa pergunta, e tantas vezes, aprendi a saboreá-la antes de responder; porque, para mim, deixou de ser apenas uma questão política, para ser quase uma sondagem da alma; uma pergunta que, muitas vezes, diz mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe, e costumo responder meio a rir, porque o riso é, às vezes, uma boa forma de testar o desconforto dos outros. Há quem se retraia. Há quem procure justificar a pergunta. Há quem disfarce, como se tivesse perguntado algo que, afinal, preferia não ter perguntado. Eu, simplesmente me rio.
Quando o país se tornou independente, eu tinha dez anos, e a ideia de PARTIDO era algo tão absoluto quanto o nascer do sol. Não se discutia o nascer do sol. Ele simplesmente acontecia.
Nasci em Mutarara, junto à linha imaginária que, aos olhos dos mapas, separava Moçambique do Malawi, e a poucos quilómetros, o rio Zambeze era o grande senhor de todas as coisas, que dominava a paisagem, regulava os caminhos, marcava as distâncias e parecia existir antes de nós e depois de nós, e no país só existia um MOVIMENTO, aliás, FRENTE, que viria, mais tarde, a ser PARTIDO. E ninguém parecia sentir falta de outro. Não havia, para uma criança de dez anos, espaço mental para imaginar a possibilidade de vários partidos. A política não era ainda uma escolha entre alternativas. Era parte da própria paisagem. Como o rio, como o sol, como a terra sobre a qual caminhávamos. Mais tarde, comecei a ouvir nomes de lugares distantes, países que pareciam pertencer a uma geografia quase imaginária: Zâmbia, Tanzânia, União Soviética, China, Vietname, Indonésia, Cuba, Gana, Somália… Eram nomes que chegavam até nós carregados de histórias, revoluções, independências e sonhos. E, na minha percepção infantil, em muitos desses lugares parecia existir também um único PARTIDO, ou pelo menos uma ideia dominante de partido, quase sempre associada a um projecto nacionalista, revolucionário ou de transformação social. Parecia ser essa a ordem natural das coisas: havia países que tinham um PARTIDO e outros que tinham vários, mas, mesmo onde existiam vários, parecia haver uma mesma filosofia maior a organizar os sonhos nacionais. Eu ainda não sabia que os partidos podiam disputar o poder, que podiam perder eleições, dividir-se, desaparecer ou nascer de novo. Não sabia sequer que, para além do PARTIDO que conhecíamos, existiam outras maneiras de imaginar o país. Naquele tempo, para mim, PARTIDO não era ainda uma escolha. Era simplesmente o mundo como eu o conhecia. A política, naquela época, não se separava da vida. Era a voz do locutor na rádio nacional, o discurso que ecoava nas praças, a bandeira hasteada nas escolas, os cânticos que aprendíamos de cor. Não havia, para nós, uma outra forma de pensar — e, talvez, nem outra forma de sonhar. Os mais instruídos tentavam, por vezes, trazer as suas reaccionárices, mas eram rapidamente rechaçados pela força da onda revolucionária. Havia uma linguagem dominante, uma maneira certa de interpretar o mundo e, sobretudo, uma fronteira invisível entre aquilo que pertencia à revolução e aquilo que era considerado desvio. Mas, antes da política, havia, e continua a haver, a mesa. A verdadeira pedagogia estava no prato do dia. Lembro-me bem: xima com peixe, ou tchimbaba quando o peixe não havia. Às vezes, verduras; outras vezes, carne — raramente, e quase sempre em dias de festa ou aos fins de semana. E havia as ratazanas do mato — porque, claro, eram sempre as do mato — assadas ou cozinhadas com cuidado. Não eram motivo de vergonha. Eram alimento, sobrevivência e, de certa forma, orgulho regional. Uma boa mbewa podia, para quem conhecia o seu sabor, valer mais do que muitos pratos caros de Paris ou de Itália, mas a colonização deixou-nos também uma espécie de vergonha do que era nosso. Inferiorizou hábitos, sabores, línguas, costumes e formas de viver que eram profundamente nossos, enquanto elevava o que vinha de fora à condição de modelo. O arroz, o macarrão e outras comidas associadas à “gente da cidade” adquiriam, por isso, um estatuto diferente. Eram comidas de ocasião, reservadas aos dias especiais, às visitas, às festas ou àqueles momentos em que a mesa precisava de parecer diferente.
Hoje, quando penso nisso, percebo que a política também se aprendia à mesa. Aprendia-se no que havia para comer, no que faltava, no que era valorizado e no que se considerava inferior. Aprendia-se que a revolução podia estar no discurso da praça, mas também no prato colocado diante de nós. E talvez tenha sido aí, muito antes de compreender o que era ideologia, que comecei a perceber que nenhuma política vive apenas dos seus discursos. Ela entra pela casa, senta-se à mesa e aprende connosco o sabor da vida. Olhando para esse cenário, posso dizer que a infância me ensinou duas coisas que nunca mais me abandonaram: o sabor da escassez e o valor da partilha. Talvez seja por isso que, mesmo depois de conhecer outros mundos, outras cozinhas, outras ideias políticas e filosóficas, continuo preso a esses dois pilares: de um lado, a escassez, que nos ensinava a transformar pouco em suficiente, e do outro, a partilha, que fazia da mesa um lugar onde o pouco podia chegar para muitos. E, no centro dessas duas aprendizagens, estava a xima (nsima, wuswa, epwaha, ugali, sadza, bwali), esta que me acompanhou desde a infância até à idade adulta. Foi alimento de casa, de escola, de viagens, de ausências e de reencontros. Mais tarde, já na vida universitária, conheci outras cozinhas, outros sabores, outras iguarias de nomes sofisticados, pratos que pareciam pertencer a um mundo distante daquele em que cresci, mas ela continuava ali: silenciosa, familiar, quase como uma língua materna do paladar. É por isso que, quando penso na minha formação política, encontro uma correspondência inevitável. A xima é, para mim, o símbolo culinário que atravessa a minha infância e chega à idade adulta: não porque tenha sido o único alimento, mas porque foi aquele que permaneceu; aquele que não precisava de explicação; aquele que podia acompanhar o peixe, a carne, as verduras ou simplesmente aquilo que houvesse. Politicamente falando, a FRELIMO ocupa, na minha história existencial, um lugar semelhante. Foi o PARTIDO que conheci primeiro. Para mim, FRELIMO significava política: não uma política entre várias, mas a própria ideia de política. FRELIMO era a linguagem política através da qual aprendi a reconhecer o país, a sua história, os seus símbolos e os seus sonhos. Era a referência que antecedeu o conhecimento das alternativas. Antes de haver escolha, havia pertença. Antes de haver comparação, havia identificação; e por isso, para mim, a FRELIMO é quase a xima da minha vida política: o alimento simbólico de uma formação que começou antes de eu ter idade para compreender o significado da própria política. E talvez seja justamente aqui que resida a dificuldade de explicar a minha relação com o PARTIDO. Não se trata apenas de uma filiação política. Trata-se, sim, de uma memória; de uma formação; de uma parte da paisagem emocional e histórica em que aprendi a ser moçambicano. É difícil explicar a alguém que chegou à política pela escolha aquilo que significa ter chegado a ela pela experiência. Eu não escolhi primeiro a FRELIMO para depois aprender a conhecer Moçambique. Conheci Moçambique através da FRELIMO, tal como conheci a mesa através da xima, e só muito mais tarde haveria de descobrir que aquilo que nos parece natural na infância pode, na idade adulta, transformar-se em pergunta. E talvez seja essa a pergunta que me acompanha até hoje: quando uma pertença nasce antes da consciência, pode ela ser julgada apenas como uma escolha política?
Depois vieram, no entanto, outras ideias, outros partidos, outras correntes, outros nacionalismos e outros patriotismos. Vieram também as dúvidas, as críticas, as contradições e a consciência de que nenhum partido é dono exclusivo da pátria, mas aquilo que se aprende primeiro deixa marcas profundas.
A xima pode ganhar novos acompanhamentos; pode ser servida ao lado de pratos que nunca conhecemos na infância; pode até dividir a mesa com sabores estrangeiros, mas continua a ser xima. Talvez seja assim também a minha relação com a FRELIMO: uma pertença que nasceu antes da escolha consciente e que, por isso mesmo, não pode ser reduzida às circunstâncias políticas de cada momento. É desse lugar: entre a memória, a crítica e a pertença, que hoje respondo à pergunta que tantas vezes me fazem:
“Tu ainda és da FRELIMO?”
Vamos a outro compasso.
Mais tarde, o mundo político abriu-se e começou a exigir novas escolhas. Veio o multipartidarismo. A minha primeira surpresa foi descobrir que, na República Democrática Alemã, existiam outros partidos políticos além do partido que eu conhecia como dominante. Era estranho; muito
estranho, sobretudo por se tratar de um país pertencente ao bloco socialista da época. Depois, ouvi falar de eleições multipartidárias. Eleições, no entanto, sempre existiram em Moçambique. Havia eleições populares, com participação e voto popular. O que mudava agora era a natureza da disputa: entravam em cena diferentes partidos, diferentes propostas e diferentes discursos. Nesse compasso modernizante, vieram os debates, surgiram partidos com novos nomes e discursos mais afiados. Falava-se em democracia, alternância, liberdade de expressão. Tudo muito bonito, mas, no fundo, eu reconhecia muitas das disputas de sempre — apenas agora com mais gravatas e menos poeira nos sapatos. Com as eleições multipartidárias, já não havia um único comando político. Havia muitas vozes a erguer-se, procurando espaço, influência e reconhecimento. O país beneficiou-se dessa abertura. Algumas coisas mudaram; outras, nem tanto. Permaneceram injustiças, desigualdades e promessas que envelheceram mal, e ainda assim, cada vez que alguém me pergunta por que não mudo de partido, sinto vontade de responder:
“Você mudaria de infância?”
Mudar não se trata de mudar por mudar. Também não significa defender o indefensável ou fechar os olhos perante o erro. Trata-se de reconhecer que o erro é humano e que a história é maior do que aqueles que, em determinados momentos, a mancham. Posso discordar de pessoas, de decisões e de rumos. Posso criticar, questionar e até rejeitar determinadas práticas. O que não consigo é rasgar o tecido simbólico que me vestiu desde menino.
A FRELIMO que me encontrou em Mutarara, e que eu conheci naquele tempo, já não é a mesma, mas é preciso dizer a verdade: a FRELIMO não é, para mim, apenas uma sigla. É também uma presença. Está nas canções que ouvi em Mutarara, na Namaccha, na Beira, em Maputo; no hino que aprendi sem compreender todas as suas palavras, no sonho de um país que ainda acreditava poder ser outro. E, de certa forma, continua a ser isso: a ideia de um país em construção, feito de fé, contradições, erros, conquistas e insistência. É por isso que a minha relação com a FRELIMO não cabe inteiramente numa escolha eleitoral, nem pode ser medida apenas pela concordância com quem, em cada momento, ocupa o seu espaço de direcção. Há uma parte dessa relação que pertence à política, outra à memória e outra à própria história da minha vida. Talvez seja essa a diferença entre pertencer e simplesmente aderir. A adesão pode ser interrompida quando mudam as circunstâncias. A pertença, quando nasce muito cedo, carrega consigo uma memória que não desaparece apenas porque o presente se tornou diferente.
E o Presidente Julius Nyerere, da vizinha Tanzânia, alertava-nos: “Moçambique está no mar alto.” Era uma expressão para descrever o momento difícil e turbulento que o nosso país atravessava depois da independência. Moçambique navegava por águas profundas, agitadas e desconhecidas. Não havia ainda um porto seguro onde atracar. Havia, isso sim, a necessidade de continuar a navegar. Não havia mapas suficientemente detalhados para indicar todas as rotas, nem experiência acumulada que permitisse antecipar cada corrente, cada tempestade ou cada desvio. Havia um país novo, uma sociedade em transformação e a urgência de construir, ao mesmo tempo, o barco e a viagem. A metáfora de Nyerere ficou; talvez porque um país recém-independente seja também isso: um barco lançado ao mar antes de conhecer completamente as correntes, os ventos e a verdadeira dimensão da viagem; não se espera que tudo esteja pronto para começar a navegar, que se parte com os instrumentos disponíveis, com a memória do caminho percorrido e com a confiança de que será possível aprender com o próprio movimento. Navega-se, portanto, com aquilo que se tem; com instituições ainda em formação, com homens e mulheres moldados pela luta, com experiências acumuladas no percurso da libertação e com ideias que nem sempre encontravam correspondência imediata na realidade. Havia convicções, mas também incertezas. Havia planos, mas também improvisação. Havia a consciência de que governar um país independente seria muito diferente de lutar pela sua independência. E era precisamente no movimento que muitas das respostas começavam a surgir. Algumas escolhas revelavam-se acertadas; outras exigiam correcção. Certas estruturas fortaleciam-se, enquanto outras mostravam as suas fragilidades. O país ia descobrindo os seus próprios limites ao mesmo tempo que procurava ampliá-los. A experiência política deixava de ser apenas uma herança da luta e transformava-se, progressivamente, numa aprendizagem do exercício do poder. Talvez seja essa uma das condições inevitáveis dos momentos fundadores: não se constrói primeiro para depois começar a caminhar; constrói-se enquanto
se caminha; aprende-se enquanto se governa, enquanto se erra, enquanto se corrige e enquanto se descobre aquilo que ainda não se sabia que era necessário saber. A metáfora permanece por isso actual: navegar não significa conhecer previamente o destino em todos os seus detalhes; significa, sim,reconhecer as correntes, interpretar os ventos, ajustar as velas e, quando necessário, mudar de rumo sem abandonar a viagem. E, como escreveu o poeta espanhol Antonio Machado, “caminhante, não há caminho; faz-se o caminho ao andar”. Talvez seja essa a melhor síntese para aqueles primeiros anos: aprende-se a caminhar caminhando, a navegar navegando, a construir o país enquanto se descobre, no próprio percurso, que país se pretende construir.
Às vezes, acerta-se o rumo; outras vezes, é preciso corrigir a rota. E, sobretudo, há momentos em que o mar parece demasiado grande para a pequena embarcação que somos. Moçambique continuou a navegar. Hoje, talvez já não estejamos simplesmente no mar alto. Temos portos. Alguns precisam de reparação, outros precisam de ser ampliados, e há aqueles que ainda não conseguem receber todos os que chegam, mas existem. E isso também é resultado de uma história que não começou ontem.
Voltemos à FRELIMO. Às vezes penso que ser da FRELIMO é como carregar uma herança sentimental. Não é apenas uma escolha racional, feita depois de pesar argumentos e comparar programas. É também um vínculo de memória. É olhar para o mapa de Moçambique e não ver apenas fronteiras políticas. É ver caminhos. Caminhos de homens e mulheres que lutaram, acreditaram, sacrificaram-se, erraram e, apesar dos erros, continuaram a acreditar que aquele território poderia tornar-se um país livre. Por isso, quando se diz que foi graças à FRELIMO que Moçambique alcançou a independência, não vejo razão para fugir dessa verdade histórica. Podemos reconhecer outros protagonistas. Podemos falar de outros grupos, movimentos e correntes que participaram da luta anticolonial. Podemos discutir estratégias, divergências, contributos e omissões. A história merece essa complexidade, mas há uma realidade que não pode ser apagada: foi a FRELIMO que conduziu a luta de libertação nacional até à independência e que, em 1975, assumiu a responsabilidade de construir o Estado moçambicano independente. É por isso que a palavra FRELIMO, para mim, não se resume à organização política que existe hoje. Ela carrega também a memória de um momento fundador. Carrega o país que nasceu. Carrega a liberdade que passou a fazer parte da vida de milhões de moçambicanos. E talvez seja justamente por isso que a minha relação com ela seja tão difícil de explicar: porque uma coisa é a FRELIMO da memória; outra é a FRELIMO do presente. Entre as duas existe uma longa viagem, com victórias e fracassos, esperança e desilusão, avanços e recuos.
A criança que aprendeu a conhecer a FRELIMO não conhecia ainda todas essas diferenças.
Conhecia apenas a ideia de um país que tinha acabado de nascer. O adulto que hoje olha para trás já sabe que nenhum movimento, nenhum partido e nenhum governo pode ser confundido com a própria pátria, mas também sabe que há momentos na história em que uma organização política se torna parte inseparável da memória colectiva de um povo. A FRELIMO é, para mim, também isso: uma parte da história de Moçambique. Uma parte da minha história. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, continuo a ouvir a advertência de Nyerere como se tivesse sido feita ontem: “Moçambique está no mar alto.” A diferença é que hoje já sabemos que não basta sobreviver ao mar. É preciso aprender a navegar.
Tenho em mente que o país ainda não terminou de nascer. Às vezes penso que Moçambique é uma criança que nunca pôde crescer devagar. Nasceu de um parto difícil — com dor, pressa e esperança misturadas — e logo lhe pediram que caminhasse, trabalhasse, sorrisse, cantasse hinos e reconstruísse uma casa ainda em ruínas. Eu vi isso. Vi o país levantar-se das cinzas e aprender a dizer o próprio nome. Vi escolas sem livros e professores que ensinavam mais pela fé do que pela formação. Vi hospitais sem medicamentos e enfermeiras que, muitas vezes, curavam com a palavra e o toque. Vi camponeses que acreditavam que empunhar a enxada era também um gesto revolucionário. Vi também o cansaço. Vi a desilusão chegar como uma sombra quando o sonho começou a parecer distante. É fácil erguer uma bandeira; difícil é fazê-la tremular todos os dias sobre a fome, a burocracia, a corrupção e o desencanto. Foi nesse cenário que aprendi a olhar para o meu país com ternura e desconfiança ao mesmo tempo. É um amor que não idealiza. Um amor que observa, exige e questiona, mas que não
desiste. A FRELIMO, a minha, a nossa, nesse contexto, foi e continua a ser, para mim, mais do que um partido: foi o fio que costurou o tecido de uma nação. Sem ela, talvez ainda estivéssemos à procura de um idioma comum, de um chão onde pudéssemos falar sem medo, mas, como todo o fio antigo, também ela se desgastou. Há pontos frouxos, nós mal apertados e emendas que já não seguram o tecido como antes, e ainda assim, continuo a reconhecer nela o gesto inaugural: a coragem de quem acreditou que a liberdade era possível.
Hoje, o país parece outro: mais urbano, mais informado, mais céptico. Os jovens já não se deixam convencer facilmente por heróis de camisas vermelhas e discursos longos. Querem resultados, empregos e futuro. E é justo que assim seja, mas, por vezes, falta-lhes o sentido da origem; falta-lhes a consciência de que aquilo que temos — mesmo quando parece pouco — custou demasiado para ser esquecido com tanta pressa.
Volto, então, de novo à FRELIMO.
Ser da FRELIMO, para mim, não é carregar um slogan. É carregar uma memória. É saber de onde viemos e por que ainda estamos aqui, teimosamente vivos. É acreditar que o país, apesar de tudo, ainda tem jeito — desde que aqueles que o governam se lembrem de que o poder não é um trono, mas uma travessia.
Há quem diga que Moçambique precisa de alternância. Talvez precise, mas, antes disso, precisa de consciência: uma consciência despida de preconceitos, ressentimentos e egoísmos desnecessários.Podemos trocar de bandeira sem mudar de mentalidade. Podemos substituir os protagonistas sem transformar a lógica que sustenta o poder. E, se assim for, estaremos apenas a repetir a história com novos rostos. O verdadeiro desafio talvez não seja apenas mudar quem governa, mas mudar a forma como entendemos o país, o poder e a responsabilidade de governar, porque uma nação não se constrói apenas com novas bandeiras; constrói-se quando aqueles que a conduzem compreendem que a história não lhes pertence: pertence, sobretudo, ao povo que continua a atravessá-la.
Compasso seguinte: Partidos políticos e País
Há um momento da vida em que aprendemos a separar coisas que, durante muito tempo, pareciam inseparáveis. Durante anos, confundi o Partido com o País, a bandeira com o céu, a revolução com a própria respiração. Hoje sei que existe um espaço entre o partido e o país: um espaço feito de dúvidas, silêncios e escolhas que o tempo nos obriga a fazer.
O partido ensinou-me a falar de liberdade. O país ensinou-me o patriotismo. Entre um e outro, aprendi a viver. Não renego o que fui, nem aquilo que continuo a ser, mas também não aceito que me digam que fidelidade é sinónimo de cegueira. Sou da FRELIMO e, ao mesmo tempo, exijo que ela se renove. E acredito que essa renovação está em curso. Daniel Chapo é, para mim, um dos exemplos dessa renovação interna que está abrindo caminhos a uma renovação nacional.
O tempo dos slogans passou. Hoje, o país não precisa de apenas de canções de marcha; precisa também de passos firmes. O discurso revolucionário que alimentou a nossa infância já não basta para responder às exigências da fome moderna, do desemprego, da desigualdade, da falta de serviços públicos e das novas aspirações de uma sociedade que mudou. Precisamos de nos reinventar para sermos a nossa própria solução. A nova geração já não quer apenas heróis. Quer instituições que funcionem, escolas que ensinem, hospitais que tratem e uma administração pública que responda. Quer oportunidades e quer ser ouvida. Talvez seja, por isso, chegado o momento de a FRELIMO aprender a escutar ainda mais o povo: voltar a sentar-se com operários, camponeses, professores, enfermeiros, estudantes…Felizmente, esse trabalho já começou. O Diálogo Inclusivo é, nesse sentido, uma demonstração importante. Mais do que um exercício político, pode produzir um efeito catártico: uma purificação colectiva, capaz de abrir espaço para que emoções reprimidas, frustrações acumuladas e feridas antigas encontrem finalmente uma forma de expressão. Depois de anos marcados por conflictos, exclusões, desilusões e diferentes formas de sofrimento, o povo moçambicano precisa de falar, mas também precisa de ser ouvido. Escutar não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que uma sociedade não pode continuar a construir o seu futuro ignorando aquilo que sente.
A FRELIMO foi, e continua a ser, parte do meu sangue político. Quando me perguntam se ainda sou da FRELIMO, penso antes de responder. Sou daquilo que ela representou no seu melhor: a
coragem, o sonho e o sacrifício, mas não sou das suas sombras, nem daqueles que usam o seu nome para esconder ambições pessoais.
Sou da FRELIMO que acreditava no país, não da que acredita apenas no poder.
Perguntar-se-ão por que escrevo tudo isto. Escrevo não como quem simplesmente defende, nem como quem simplesmente acusa, mas como quem se recorda. E recordar-se também é resistir à amnésia política. Há em mim, ainda, um menino de Mutarara que acredita que o país pode ser melhor — se ao menos aprendermos a amar o povo com a mesma intensidade com que amamos o partido.
De uma coisa tenho certeza: sou da FRELIMO, mas não da FRELIMO dos malandros e malabaristas, daqueles que usam o partido como escada e não como instrumento de serviço à pátria. Não sou da FRELIMO dos ambiciosos sem memória, nem dos regionalistas que dividem o país em pedaços. Não sou daqueles que se esquecem de que o vermelho da bandeira não é apenas uma cor: é também sangue, sacrifício e história. Sou da FRELIMO dos que andaram descalços, dos que cantavam de madrugada, dos que acreditavam que a independência era uma forma de dignidade, e não um passaporte para privilégios. Sou da FRELIMO que plantava esperança no meio da pobreza, que via no camponês um herói, e não um número. Sou da FRELIMO que falava ao povo, e não apenas sobre o povo. Sou da FRELIMO que ainda sonha, mesmo cansada, mesmo traída, mesmo ferida. Da FRELIMO que aprendeu a resistir antes de governar e que acredita que governar é, acima de tudo, continuar a servir. Sou da FRELIMO da minha infância: da xima e do peixe seco, da voz do meu pai nas manhãs de Mutarara, da bandeira que tremulava mais alto do que o medo. É essa a FRELIMO em que ainda acredito: a dos que erram, mas não mentem. A dos que lutam, mas não se vendem. A dos que sabem que o país é maior do que qualquer partido e que o poder sem ética é apenas miséria vestida de uniforme.
Compasso livre: Samora — o sonho em voz alta
Foi o meu — o nosso — primeiro Presidente. Samora Moisés Machel era o rosto e o verbo do sonho. Falava com uma paixão capaz de incendiar corações. As suas palavras tinham o poder de transformar a fome em esperança e a miséria em luta. Eu era ainda criança, um continuador da revolução. Mais tarde, já jovem, lembro-me de ouvir pela rádio aqueles discursos que misturavam pedagogia e poesia. “A luta continua!” — e nós respondíamos com o punho erguido e o peito cheio, como se também fizéssemos parte daquela grande multidão que acreditava estar a construir uma nova história. Samora Machel era o professor de todos nós. Com ele aprendemos que a independência não era um presente recebido uma vez por todas, mas uma tarefa diária. E essa independência teve adversários, teve inimigos. A guerra chegou cedo demais, e o país, ainda de joelhos, foi obrigado a correr. O inimigo não vinha apenas de fora. Vinha também da pobreza, da ignorância, da fome, da sabotagem, das divisões e das ambições individuais. Vinha de tudo aquilo que ameaçava transformar a liberdade conquistada numa promessa vazia, e mesmo assim, Samora ensinou-nos algo que ainda hoje ecoa: a revolução começa no coração de cada um. Ser moçambicano era acreditar, mesmo quando tudo parecia desabar. E, em Outubro de 1986, Samora partiu. Lembro-me do silêncio pesado que caiu sobre o país. Foi como se Moçambique tivesse ficado órfão. E ficou, de facto, órfão de um visionário, de um líder e de um vendedor de sonhos. Quando morreu, o povo não chorou apenas um homem. Chorou também o sonho que ele representava.
Veio Joaquim Chissano, com a serenidade de quem sabia que era preciso reconstruir sem perder completamente a alma do projecto nacional. Com ele veio a transição do fogo para o diálogo, do punho cerrado para a mão estendida, do monopartidarismo para o multipartidarismo. Foi sob a sua liderança que Moçambique assinou a paz e descobriu, na prática, o peso de palavras como reconciliação, negociação e moderação. Chissano foi o Presidente que nos ensinou a pensar o Estado como uma casa de todos. Foi o tempo de reaprender. O tempo da diplomacia. O tempo de abrir janelas sem deixar entrar o vento da desordem. Foi também o período em que o capitalismo bateu à porta e trouxe consigo promessas douradas. Vieram os créditos, os investidores, as organizações não governamentais, os estrangeiros com pastas cheias de projectos e as novas linguagens do desenvolvimento. No meio de tudo isso, o país começou a mudar — nem sempre para melhor. A pobreza persistiu, mas ganhou uma nova dimensão visível: a desigualdade. O sonho popular começou a dividir-
se entre os que conseguiram subir e os que permaneceram na base da pirâmide, e ainda assim, há que reconhecer: com Chissano, Moçambique reaprendeu a respirar em paz.
Depois veio Armando Emílio Guebuza. Foi outra fase da nossa história: o tempo das grandes ambições, dos projectos e do discurso da autossuficiência. “Trabalhar mais e produzir mais” tornou-se uma espécie de convocatória nacional. Era o tempo do pragmatismo, do empreendedorismo e do orgulho nacional. Falava-se de “auto-estima moçambicana”, de trabalho e de capacidade própria, mas foi também nesse período que o país começou a conhecer, de forma mais evidente, o rosto duro do poder económico. A política e os negócios passaram a caminhar lado a lado, por vezes, perigosamente próximos. O Partido tornou-se, para muitos, cada vez mais máquina e menos alma. E alguns começaram a confundir fidelidade com subserviência. A palavra “camarada” perdeu, em certos espaços, parte do seu brilho e passou a funcionar como senha de conveniência. Foi o tempo das fortunas rápidas e das feridas profundas, mas a história também exige justiça. Guebuza trouxe energia à gestão, disciplina ao discurso público e um forte apelo ao orgulho nacional, ao trabalho e à produção. O problema esteve, muitas vezes, no abismo que cresceu entre o discurso e a realidade.
Depois de Guebuza chegou uma Presidência com um significado particular para o país e para a própria FRELIMO. Filipe Nyusi representou uma transição de gerações: dos combatentes da luta de libertação para uma geração que, embora formada sob a influência da luta, já pertencia ao período pós-independência. Representou também uma mudança simbólica na geografia política do país: depois de Presidentes oriundos do Sul, chegava à Presidência alguém nascido no Norte. E havia ainda uma terceira dimensão: a sua formação académica contínua, da primeira classe à licenciatura, sem as interrupções impostas a muitos da geração anterior pela própria história do país.
O seu mandato começou em tempos turbulentos: a sombra das dívidas ocultas, o ressurgimento das feridas da guerra, as crises de confiança, as calamidades naturais e as dificuldades económicas que atingiram diferentes partes do país.
Nyusi trouxe, porém, algo que parecia ter-se tornado raro na política moçambicana: a capacidade de escutar. Escutar não significava necessariamente concordar, mas reconhecer que o país tinha mudado e que a política precisava de mudar com ele. Com ele, a FRELIMO começou também a olhar para dentro de si e a perceber que, se a revolução quisesse sobreviver ao tempo, teria de se reinventar. Foi um período de reconciliação interior, de tentativa de renovação moral e política e, sobretudo, de procura de uma nova linguagem para um país que já não era o mesmo de 1975. As novas gerações tinham outras expectativas, a sociedade tornara-se mais complexa e a legitimidade histórica já não podia, por si só, responder às exigências do presente. A questão passou a ser como preservar a memória da luta de libertação sem transformar essa memória numa prisão política. Por vezes penso que muitos não compreenderam verdadeiramente Nyusi. Talvez não tenham percebido a importância de um homem que procurou reduzir a temperatura de um país marcado por décadas de confrontação e conseguiu encerrar um ciclo de conflicto armado no centro do país. Para muitos cidadãos, isso significou recuperar algo que parecia banal, mas que a guerra tinha tornado precioso: a possibilidade de circular, trabalhar, visitar familiares e regressar a casa sem o peso permanente do medo. A paz, afinal, não se mede apenas pelos acordos assinados ou pelos discursos feitos; mede-se também pela estrada que volta a ser percorrida sem receio, pela família que deixa de esperar más notícias, pela criança que chega à escola e pelo comerciante que pode transportar os seus produtos. A paz também se mede por aquilo que deixa de acontecer. E talvez seja essa a dimensão mais silenciosa da paz: quando funciona, quase não se vê. Torna-se normalidade. E, num país marcado por uma longa história de guerra e desconfiança, devolver a normalidade à vida quotidiana não é pouco. É uma das formas mais profundas de reconstruir um país.
E chegamos, agora, à era de Daniel Francisco Chapo. Chapo representa uma nova etapa. É um
Presidente nascido depois da independência, pertencente a uma geração que não viveu directamente a luta armada, mas que cresceu sob o peso da sua memória e das suas consequências. A sua chegada tem, por isso, um significado que ultrapassa a questão regional. Num país onde as leituras étnicas e geográficas continuam, por vezes, a contaminar o debate político, a eleição de alguém oriundo do centro pode ajudar a deslocar a discussão para aquilo que verdadeiramente importa: a capacidade de governar
Moçambique como um todo. Não se trata de substituir uma região por outra. Trata-se de ultrapassar a ideia de que o país deve ser lido através de geografias políticas permanentes. Chapo chega jovem e chega depois de quase meio século de independência. Carrega, inevitavelmente, as lições de todos os que o antecederam: de Eduardo Mondlane, Marcelino dos Santos e outros protagonistas da luta de libertação, recebe a memória do sonho libertário. De Samora Machel, a ideia de que governar também é mobilizar consciências e transformar esperança em acção. De Chissano, a lição do diálogo, da negociação e da paz. De Guebuza, a importância do trabalho, da produção, da iniciativa e do orgulho nacional, mas também a necessidade de não permitir que o poder económico se sobreponha ao interesse público. De Nyusi, a importância da escuta, da reconciliação e da capacidade de encerrar ciclos de violência. E, acima de todos eles, Chapo recebe a responsabilidade de compreender que Moçambique mudou. Ele não começa uma história do zero. Entra numa história que já tem quase cinco décadas, marcada por sonhos, conquistas, erros, guerras, reconciliações, perdas e esperanças. A sua geração tem uma vantagem e um desafio: a vantagem é não carregar directamente algumas das feridas da geração fundadora. O desafio é não se esquecer do preço que foi pago para que pudesse nascer num país independente. Talvez seja essa a grande prova da nova geração: saber receber a herança sem ficar prisioneira dela. Afinal, cada Presidente recebe uma parte do sonho e deixa outra parte para quem vem depois: Samora sonhou em voz alta. Chissano ensinou-nos a falar depois da guerra. Guebuza chamou-nos ao trabalho e à produção. Nyusi procurou reconciliar um país que ainda carregava feridas, e, agora, Chapo recebe a tarefa de transformar essa longa aprendizagem em futuro. E talvez seja esse o verdadeiro compasso da nossa história: o país muda, os Presidentes passam, os partidos transformam-se, mas o sonho de Moçambique continua à procura da sua forma definitiva.
Compasso final
Volto à pergunta que tantas vezes me foi feita, às vezes com curiosidade, outras com desconfiança, e algumas vezes como quem espera que o tempo tenha mudado aquilo que um dia fomos:“Você ainda é da FRELIMO?” Sim. Sou da FRELIMO. Digo-o sem pressa, porque há respostas que não cabem na brevidade de um sim ou de um não. Há pertenças que não começam num cartão de membro, nem terminam quando mudam as circunstâncias de um tempo. Há pertenças que nascem muito antes das formalidades e permanecem muito depois delas. Nascem de uma história que nos antecede, de uma memória que nos acompanha, de uma ideia de país que, em algum momento da vida, aprendemos a guardar dentro de nós. Sou desta história. Sou deste caminho. E sou, sobretudo, deste sonho: o sonho de um povo que um dia se levantou para dizer que o seu destino não podia continuar a ser escrito por mãos alheias. O sonho de homens e mulheres que acreditaram que a liberdade não era apenas uma palavra para ser pronunciada em dias de festa, mas uma possibilidade concreta de construir uma pátria: uma pátria onde um povo pudesse, finalmente, olhar para si mesmo e reconhecer-se como dono da sua própria história. Foi esse sonho que nos trouxe até aqui. E talvez seja por isso que ainda me interrogo sobre ele; porque pertencer a um sonho não é apenas celebrá-lo quando o sol da memória ilumina as suas victórias; que é também ter a coragem de caminhar pela sua sombra. É olhar para a própria casa com a serenidade de quem conhece cada parede, cada janela, cada corredor, e não fechar os olhos diante das fissuras que o tempo abriu. Amar uma casa não é dizer que ela é perfeita. É querer que ela permaneça de pé. É reparar aquilo que se partiu. É abrir as janelas quando o ar se torna pesado. É deixar entrar a luz; é, sobretudo, não permitir que aqueles que ainda virão encontrem apenas as ruínas daquilo que um dia lhes foi prometido.
Aprendi, ao longo dos anos, que os movimentos históricos não vivem eternamente da grandeza do momento em que nasceram. As victórias podem alimentar a memória, mas não podem, sozinhas, alimentar o futuro. Uma história só permanece viva quando é capaz de reencontrar, em cada geração, as razões profundas que um dia lhe deram nascimento.
A luta de libertação pertence à memória. A construção da pátria pertence a todos nós. E talvez seja esta a diferença entre guardar uma história e continuar a merecê-la.
Quando me perguntam se ainda sou da FRELIMO, a minha resposta não é apenas política, senão também uma resposta que vem de mais longe: da memória, das convicções que o tempo não conseguiu apagar, das esperanças que permaneceram mesmo quando algumas certezas se perderam
pelo caminho. É uma resposta de pertença. Sim, sou da FRELIMO. Sou desta história. Sou deste caminho. Sou deste sonho. Mas justamente porque pertenço, não deixo de perguntar. Justamente porque acredito, não deixo de querer melhor.
Reconheço a grandeza daquilo que foi construído, mas não deixo de pensar naquilo que ainda falta construir. Continuo a acreditar que um sonho que nasceu para libertar um povo não pode envelhecer antes de cumprir a promessa de dignidade que um dia lhe deu sentido.
Há sonhos que pertencem ao passado.
Há sonhos que sobrevivem apenas nas fotografias, nos discursos e nos livros de história.
E há sonhos que se recusam a morrer porque ainda existe, no coração de um povo, alguma coisa por realizar.
É nesse sonho que continuo.
Não num sonho imóvel, preso à nostalgia do que fomos, mas num sonho que aceita o tempo, escuta o presente e se atreve a imaginar o futuro.
Continuo a sonhar com uma FRELIMO que volte a ouvir antes de falar; que saiba escutar o silêncio das ruas e compreender as palavras que nem sempre chegam aos seus salões. Uma FRELIMO que reconheça no povo a razão permanente da sua existência.
Continuo a sonhar com uma FRELIMO — voz do povo, FRELIMO-POVO; uma FRELIMO capaz de continuar a ser aquilo que um dia nos ensinou a sonhar: povo, pátria e esperança.
Mpauto, 10 de Agosto de 2026
FDK