Líderes ocidentais rejeitam responsabilizar Estados atuais por erros históricos e, um dos rostos dessa rejeição, é o Estados Unidos da America, que na voz do seu representante, Dan Negrea, afirma que o país rejeita usar injustiças históricas como pretexto para redistribuir recursos atuais.
Por outro lado, a representante da União Europeia (UE), Gabriella Michaelidou, levantou “preocupações legais e factuais”: “Estávamos preparados para apoiar um texto que destacasse a dimensão da atrocidade do tráfico transatlântico de escravos, a importância da memória e a necessidade de continuar a combater a escravatura nas suas formas contemporâneas. No entanto, o texto apresentado levanta várias questões legais e factuais que não podemos ignorar”.
A Assembleia-Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico de africanos escravizados e a escravatura racializada como o “crime mais grave contra a humanidade” e defende reparações históricas.
No entanto, ao contrário do Conselho de Segurança da ONU, as resoluções da Assembleia-Geral não são juridicamente vinculativas, mas refletem de forma importante a opinião mundial.
O texto da resolução que foi apresentado pelo Gana e copatrocinado por dezenas de Estados-membros da ONU, obteve 123 votos a favor, três contra e 52 abstenções. Votaram contra os Estados Unidos, Israel e a Argentina.
A escravidão tem sido uma das páginas mais sombrias da história humana, carregando consigo profundas feridas e consequências que reverberam até os dias atuais. Quando se pensa em escravidão, muitas vezes associa-se esse fenômeno ao Brasil, aos Estados Unidos ou à Europa; no entanto, uma parte crucial dessa história se deu na própria África, continente de origem de grande parte das populações escravizadas.
Vários artigos produzidos por historiadores, antropóligos e outros cientistas sociais, mostram que a escravidão na África não foi apenas um capítulo isolado, mas um processo complexo, multifacetado e duradouro que influenciou diversas sociedades, economias e culturas ao longo dos séculos.
Para o Presidente do Gana, John Dramani Mahama, tido como um dos principais arquitetos desta resolução, sublinhou à Assembleia geral que a resolução representa um grande passo em direção à cura e à justiça reparadora: “Este projeto de resolução atual é o resultado de meses de consultas e construção de consensos por órgãos continentais, países, especialistas, académicos e juristas, com o único objetivo de alcançar uma frente unida e fundamentar o resultado final na verdade, na compaixão e na consciência moral, na memória, na educação e no diálogo”.
Para Gana, a história não desaparece quando ignorada. A verdade não enfraquece quando adiada. O crime não apodrece, como se diz em em África. E a justiça não prescreve com o tempo.
A resolução aprovada insta os Estados-membros da ONU a considerarem um pedido de desculpas completo e formal pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações. Até agora, só os Países Baixos o fizeram.
Consequências Econômicas e Políticas da escravatura
A participação no comércio de escravos modificou as dinâmicas políticas locais. Algumas lideranças enriqueceram e fortaleceram seus interesses políticos por meio do controle do tráfico, enquanto outras regiões sofreram instabilidade devido aos conflitos alimentados por essa atividade.
A dependência de atividades relacionadas ao tráfico e à exportação de escravos criou vulnerabilidades econômicas que prejudicaram o desenvolvimento de muitas sociedades africanas
Para os estudiosos, durante muitos séculos, o envolvimento de povos africanos no tráfico de escravos foi estigmatizado, muitas vezes de forma estereotipada, reforçando uma visão distorcida sobre o continente. No entanto, é fundamental compreender que a escravidão na África foi um fenômeno estruturado pelo contexto histórico global e não uma simples responsabilidade dos povos africanos.





