Mulher que seria executada nos EUA sobrevive à duas doses de injeção letal

Christa Pike, que aguardava no corredor da morte há 30 anos, foi transferida para um hospital

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos formalizou um apelo ao governo do estado do Tennessee, nos Estados Unidos, para que desista de qualquer nova tentativa de executar Christa Pike, de 50 anos. A americana sobreviveu à aplicação de duas doses de pentobarbital durante um procedimento de injeção letal realizado na noite de quarta-feira (30).

Após as duas aplicações do medicamento sem que o óbito fosse constatado, a mulher foi retirada do centro de execução da prisão em uma ambulância e transferida sob custódia para atendimento hospitalar.

Testemunhas que acompanhavam o procedimento — entre jornalistas e advogados de defesa — relataram que Pike reclamou de dores no braço, continuou respirando por mais de uma hora e chegou a roncar audivelmente após a administração das substâncias químicas.

Em reação ao caso, o governador do Tennessee, Bill Lee, determinou a suspensão imediata de todas as execuções previstas no estado até o fim de 2026 e ordenou uma investigação independente sobre as falhas na aplicação do protocolo. O Departamento de Correção estadual sustenta que a equipe técnica cumpriu todas as etapas regulamentares e que o pentobarbital vinha sendo utilizado com eficácia em procedimentos anteriores.

Christa Pike foi condenada à pena de morte em 1996 pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos. O crime ocorreu no ano anterior, quando Pike tinha 18 anos. Caso a sentença tivesse sido consumada na quarta-feira, ela seria a primeira mulher executada no estado do Tennessee em mais de dois séculos.

A tentativa de aplicação da pena capital ocorreu após um dia de reviravoltas judiciais. Um tribunal federal de apelações chegou a conceder uma liminar suspendendo a execução para analisar recursos apresentados pela defesa. No entanto, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a decisão e autorizou o prosseguimento do procedimento.

Nos recursos, a defesa alegou que a ré foi vítima de abusos sexuais graves durante a infância e que o histórico traumático deveria ter sido considerado para mitigar a pena. Embora o estado do Tennessee tenha reconhecido formalmente a ocorrência dos abusos em agosto, a decisão de manter a condenação à morte foi preservada.

Em manifestação nas redes sociais, o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que o episódio escancara o sofrimento físico e psicológico provocado por tentativas malsucedidas de execução, além de levantar dúvidas sobre as garantias constitucionais de um julgamento justo.

A entidade reiterou sua posição institucional favorável à abolição global da pena de morte. Nove especialistas independentes do organismo internacional aderiram ao pedido para que a pena de Pike seja comutada para prisão perpétua.

Este é o segundo incidente do tipo registrado no Tennessee em 2026. Em maio, a execução de outro condenado precisou ser interrompida após a equipe médica não conseguir localizar uma veia adequada para a inserção dos acessos intravenosos. O estado figura entre as mais de 20 unidades federativas americanas que ainda mantêm a pena capital em suas legislações.