O combate à corrupção, a rejeição da arrogância, a transparência na responsabilização dos dirigentes e a abertura de espaço para uma nova geração formam, o eixo de uma intervenção que procurou romper com o silêncio e devolver à crítica o seu lugar dentro do partido.
Perante os camaradas reunidos na XI Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, em Chimoio, Manica, para discutir os principais desafios do partido, o antigo director geral das Alfândegas colocou sobre a mesa questões que, segundo afirmou, não podem continuar a ser evitadas: corrupção, arrogância, incompetência, falta de transparência e ausência de coragem para apontar erros.
A intervenção aconteceu num dos grupos de trabalho da Conferência e assumiu um tom particularmente crítico. Tivane questionou a forma como determinados problemas internos são tratados e considerou que a existência de corrupção e arrogância dentro do partido prolonga desnecessariamente os debates.
“Se no nosso partido não houvesse corrupção, esta reunião teria terminado há muito tempo. Se não houvesse arrogância, esta reunião também teria terminado há muito tempo”, afirmou.
Para Tivane, a questão não está apenas na existência dos problemas, mas sobretudo na dificuldade de os enfrentar de forma aberta. Na sua leitura, o partido precisa de recuperar a coragem para discutir internamente aquilo que não está bem, sem receio de responsabilizar quem tiver cometido erros.
“Falta coragem para apontarmos os erros”. Foi precisamente esta uma das ideias centrais da sua intervenção. Tivane recordou uma época em que, segundo disse, os quadros da FRELIMO tinham maior liberdade e coragem para denunciar publicamente comportamentos considerados desviantes.
“Quando houvesse um comportamento desviante, corrupção, arrogância e outras coisas, nós reuníamos numa sessão deste tamanho para denunciarmos essas atitudes publicamente”, recordou.
Na sua perspectiva, a crítica e a autocrítica devem voltar a ocupar um lugar importante na vida interna do partido. Não se trata, defendeu, de atacar pessoas, mas de identificar comportamentos, apresentar evidências e tomar decisões.
O antigo dirigente considera que o silêncio perante práticas incorrectas acaba por enfraquecer a própria organização.
Outro ponto forte do pronunciamento foi a forma como o partido comunica o afastamento dos seus dirigentes.
Tivane criticou a prática de simplesmente anunciar que determinado dirigente “renunciou” ao cargo, sem explicar à sociedade as razões que conduziram à sua saída.
Para ele, quando existirem evidências de incompetência, irregularidades ou outro comportamento incompatível com as funções exercidas, o partido deve assumir a responsabilidade de explicar a decisão. “Temos que dizer ao povo porque este dirigente foi desmontado claramente”, defendeu.
E foi mais longe ao propor uma mudança de postura: “Vamos informar ao povo porque é que tiramos este dirigente, se for o caso, e houver evidências.”
A transparência, na sua visão, deve fazer parte da relação entre o partido e a população. A sociedade, entende Tivane, tem o direito de saber por que razão um dirigente é afastado, sobretudo quando esse dirigente ocupava uma função pública ou de grande responsabilidade política.
Renovação sem apagar a experiência
A intervenção de Tivane não ficou, contudo, limitada às críticas. O antigo director das Alfândegas defendeu também uma renovação geracional na liderança da FRELIMO, com maior abertura para os jovens, incluindo na Comissão Política.
Mas a renovação, na sua perspectiva, não deve significar o abandono dos quadros mais antigos. Os veteranos, incluindo aqueles que já acumularam décadas de experiência política e administrativa, podem assumir um papel diferente: o de conselheiros e transmissores de conhecimento às novas gerações.
A proposta coloca a experiência e a juventude não como forças concorrentes, mas como duas gerações que devem trabalhar em conjunto.
O discurso de Tivane ganha particular significado num encontro que a própria FRELIMO apresenta como espaço de reflexão estratégica e de recolha de contribuições para o futuro do partido e do país. A XI Conferência Nacional de Quadros reúniu milhares de participantes em Chimoio e foi precedida por um amplo processo de auscultação nas estruturas do partido.
A sua intervenção, por isso, ultrapassou a simples crítica a comportamentos individuais. Foi, essencialmente, um apelo à recuperação da cultura de debate interno.
Num momento em que a FRELIMO procura discutir a sua renovação e o seu futuro, Tivane colocou uma pergunta incómoda no centro da mesa: como transformar a crítica interna em instrumento de correcção, responsabilização e mudança?
A resposta que deixou aos camaradas foi directa: é preciso voltar a ter coragem para dizer o que está errado. E, para Tivane, essa coragem começa por não esconder os problemas.
Quem é tivane
Domingos Vasco Tivane exerceu o cargo de Director-Geral das Alfândegas, na Autoridade Tributária de Moçambique.
Durante a sua passagem pelas Alfândegas, Tivane esteve ligado à gestão de uma instituição estratégica para o Estado, responsável pela cobrança de receitas aduaneiras e pelo controlo das importações e exportações.
Há registos da sua participação em assuntos relacionados com a Organização Mundial das Alfândegas e com a modernização dos procedimentos aduaneiros.
Depois de deixar as funções públicas, Tivane passou a desenvolver actividades empresariais, tendo criado a Universidade Unitiwa”.