Rogério Zandamela prepara-se para concluir, em setembro próximo, um ciclo de 10 anos à frente do Banco de Moçambique (BM), marcado por elogios, mas também por críticas. Ao longo do seu mandato, consolidou-se como uma figura central na condução da política monetária do país, deixando um legado que continua a dividir opiniões.
A maioria dos economistas moçambicanos reconhece que Zandamela contribuiu para reforçar a estabilidade macroeconómica, preservar a solidez do sistema financeiro e fortalecer a credibilidade institucional do Banco de Moçambique. No entanto, críticos defendem que a política monetária seguida durante o seu mandato, caracterizada por taxas de juro elevadas e uma postura prudente, teve custos para o acesso ao crédito, o investimento privado e o ritmo de crescimento da economia.
Por isso, o legado de Rogério Zandamela é amplamente considerado positivo no que diz respeito à estabilidade financeira e ao controlo da inflação, mas permanece longe de reunir consenso entre empresários, analistas e agentes económicos.
Dos pontos positivos que marcaram a gestão do Rogério Zandamela destacam-se o contributo para manter a inflação relativamente controlada, sobretudo nos últimos anos, após o pico registado em 2022-2023; reforço a estabilidade do sistema bancário, com níveis considerados confortáveis de liquidez, solvabilidade e capitalização; liderou a modernização do sistema nacional de pagamentos, incluindo a interoperabilidade entre bancos e carteiras móveis e o lançamento do sistema de pagamentos instantâneos METIX, um dos marcos do seu mandato e por último, defendeu uma política monetária prudente e reforçou a credibilidade do Banco de Moçambique junto de parceiros internacionais.
Entre as principais críticas desta governação destacam-se as taxas de juro elevadas durante vários anos, argumentando que dificultaram o acesso ao crédito e travaram o investimento; persistiram problemas relacionados com a escassez de divisas, que afetaram importadores e empresas, apesar de o governador afirmar que a situação melhorou; alguns analistas entendem que o Banco de Moçambique foi demasiado conservador na condução da política monetária, privilegiando a estabilidade de preços em detrimento do crescimento econômico.
Em determinados momentos, empresários criticaram o Banco Central por considerar que as decisões de política monetária não refletiam suficientemente as dificuldades enfrentadas pelas empresas.
A maioria dos economistas reconhece que Zandamela fortaleceu a estabilidade macroeconómica e a credibilidade do Banco de Moçambique, mas há quem sustente que essa estabilidade teve custos para o crédito, o investimento privado e o ritmo de crescimento da economia.
O país reduziu a inflação, mas perdeu crescimento. Controlou a votalidade cambial, mas estrangulou o crédito produtivo. Reconstruiu as reservas, mas deixou as empresas competindo por moeda estrangeira. A política monetária alcançou seu objectivo, controlando os preços, mas a um alto custo para aquilo que deverá ter protegido que é a economia real.
Em determinados momentos, empresários criticaram o banco central por considerar que as decisões de política monetária não refletiam suficientemente as dificuldades enfrentadas pelas empresas
A intervenção no Moza Banco, em 2016, continua a ser um dos temas mais controversos do seu mandato. Embora o Banco de Moçambique sustente que a medida evitou o colapso da instituição e protegeu os depositantes, houve críticas quanto ao processo de recapitalização e à entrada de novos acionistas.
Ao fazer um balanço do seu mandato, esta semana, Zandamela revelou recentemente que, quando assumiu a liderança do Banco de Moçambique, teve de tomar uma decisão sobre a intervenção no Moza Banco em muito pouco tempo.
Segundo o governador, dispôs de apenas cerca de dois minutos para decidir se avançava com a intervenção, uma vez que o adiamento poderia desencadear uma crise sistémica, colocando em risco os depósitos dos clientes e a estabilidade do sistema financeiro. Zandamela afirmou que foi uma das decisões mais difíceis da sua carreira e que assumiu integralmente a responsabilidade pelas consequências.
Mais tarde, o Banco de Moçambique defendeu que a intervenção e a subsequente recapitalização do Moza Banco foram necessárias para evitar o colapso da instituição e proteger os depositantes. Contudo, o processo gerou forte polêmica, incluindo acusações de conflito de interesse.