O Homem que Queria o Seu Sangue de Volta

Por Joana Macie

Foi em outubro de 1999. Eu era jornalista da Agência de Informação de Moçambique (AIM) quando fui enviada a Cabo Delgado para produzir uma série de reportagens sobre saúde materno-infantil. A missão era financiada pela UNICEF e acompanhava uma jornalista holandesa interessada no tema. Éramos três mulheres naquela viagem: eu, a jornalista holandesa Monique e Ruth Hanse, então responsável pelo Gabinete de comunicação e imagem do UNICEF, uma inglesa de origem ganesa que viria, mais tarde, a integrar a equipa de assessoria de imprensa de Kofi Annan, antigo Secretário-Geral das Nações Unidas. Percorremos vários distritos, visitámos centros de saúde, escolas, curandeiros, matronas e comunidades que preservavam a cultura makonde, através da arte. Entre uma entrevista e outra, ainda encontrávamos tempo para apreciar as magníficas praias de Cabo Delgado, como a do Wimbe, em Pemba. A província carregava ainda as profundas cicatrizes da guerra civil, terminada poucos anos antes com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1992. A pobreza era visível por toda a parte. Muitas pessoas caminhavam descalças pelas ruas. Sensibilizadas por aquela realidade, decidimos comprar alguns pares de chinelos e capulanas para oferecer. Antes de entregar os chinelos, perguntávamos a cada pessoa qual era o número que calçava. As respostas transformaram-se numa inesperada fonte de humor. Um homem respondeu, sem hesitar, que calçava o número 100. Outro disse usar o número 70. O mais surpreendente foi um jovem que afirmou calçar o número 180. Rapidamente percebemos que muitos lançavam números ao acaso, sem qualquer referência às medidas reais. Mas a história que mais me marcou aconteceu em Mocímboa da Praia. Fomos ao distrito para visitar uma matrona que colaborava com médicas tradicionais em casos de partos difíceis, numa época em que muitas mulheres percorriam longas distâncias para chegar a uma maternidade. Depois seguimos para o hospital distrital, onde entrevistámos parteiras, parturientes e a responsável da maternidade. Por fim, fomos recebidas pelo diretor do hospital. Ainda trocávamos as primeiras saudações quando ouvimos uma enorme agitação do lado de fora. Pessoas corriam em direção à maternidade. Havia agentes da polícia, líderes tradicionais e uma multidão curiosa. O diretor levantou-se imediatamente. Nós seguimos atrás. No centro da confusão estava um casal, acompanhado por familiares de ambos — pais, avós e líderes comunitários. Ao lado deles encontrava-se um homem de braços amarrados, quase sem pronunciar palavra. O grupo queria entrar na maternidade para confrontar as parteiras que tinham assistido ao parto do terceiro filho daquele casal. O diretor pediu que todos se dirigissem à esquadra da polícia, situada junto ao hospital. Movidas pela curiosidade profissional, acompanhámos o grupo e conseguimos assistir à audiência. O primeiro a falar foi um homem de cerca de quarenta anos. — Esta senhora é minha esposa. Temos três filhos. Há dois anos, durante o último parto, ela teve complicações graves. O hospital pediu-me para doar sangue. Eu doei. O meu sangue salvou-lhe a vida. Fez uma pausa antes de continuar. — Mais tarde começaram os problemas no nosso casamento. Descobri que ela tinha outro homem. Quando reuni as famílias para resolver a situação, ela disse que já não me queria. Na semana passada, abandonou a minha casa para viver com ele. Apontou para o novo companheiro da mulher. — Agora quero o meu sangue de volta. A sala mergulhou num silêncio absoluto. — Não aceito que outro homem beneficie do sangue que corre nas veias dela. Quero o meu sangue. Polícias, profissionais de saúde, familiares e líderes tradicionais olharam-se sem saber como responder. Chamaram então um técnico de laboratório, que explicou, com toda a paciência, como funcionavam as transfusões sanguíneas. Disse que o sangue doado não permanecia identificado dentro do corpo de quem o recebia e que as bolsas eram utilizadas conforme as necessidades dos doentes. Mas a explicação científica não resolvia o problema. O homem insistia que, segundo as suas crenças e tradições, aquele sangue continuava a ser seu. Os pais dele e o líder tradicional apoiavam-no. Para eles, a questão não era médica. Era espiritual, familiar e moral. Na sua visão do mundo, o sangue não era apenas um líquido que circula nas veias. Era um vínculo. Uma extensão da própria pessoa. Um património simbólico que não podia simplesmente mudar de dono. As duas famílias mantinham-se profundamente divididas. O novo companheiro da mulher permanecia em silêncio, visivelmente desconfortável perante uma situação para a qual ninguém parecia encontrar resposta. Sem consenso, a polícia marcou uma nova audiência para o dia seguinte. Nós, porém, regressaríamos a Pemba e, depois, a Maputo. Nunca soubemos como aquela história terminou. Passaram-se 27 anos. Esqueci muitos nomes, muitos números e inúmeras entrevistas realizadas durante aquela viagem. Mas nunca esqueci aquele homem. Não porque tivesse razão ou porque estivesse errado. Lembro-me dele porque, naquele pequeno gabinete de uma esquadra em Mocímboa da Praia, compreendi uma das maiores lições que o jornalismo me deu. Os factos são essenciais. A ciência também. Mas nenhuma sociedade vive apenas de factos ou de evidências científicas. As pessoas vivem igualmente de crenças, valores, símbolos e formas próprias de interpretar o mundo. O papel do jornalista não é julgar essas visões, muito menos ridicularizá-las. É procurar compreendê-las antes de as contar. Talvez seja essa a verdadeira riqueza desta história: descobrir que existem realidades onde a lógica da ciência e a lógica da cultura caminham lado a lado, nem sempre em harmonia, mas ambas profundamente humanas. Entre as centenas de histórias que recolhi ao longo da minha carreira e continuo a recolher, poucas me ensinaram tanto quanto a daquele homem que, depois de salvar a mulher que amava, só queria uma coisa impossível: o seu sangue de volta.

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