Do Índico ao Cerrado: poesia constrói ponte viva entre Moçambique e Brasil

Num mundo que frequentemente ergue muros, a poesia continua a abrir caminhos. A assinatura do Memorando de Entendimento entre o Coletivo Poetas d’Alma de Moçambique e o Coletivo Goiânia Clandestina, do Brasil, não é apenas um gesto institucional: é a formalização de uma travessia cultural que liga o Índico ao Cerrado, transformando afinidades artísticas em compromisso duradouro.

O acordo, ontem firmado virtualmente, consolida um diálogo iniciado em 2025, quando artistas goianos participaram da sétima edição do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas, Poetas d’Alma, em Maputo. O que antes era encontro, agora se torna estrutura. Durante cinco anos, os colectivos assumem o papel de embaixadores culturais um do outro, activando uma engrenagem contínua de residências artísticas, circulação de artistas, oficinas, festivais e publicações conjuntas.

Coletivo Poetas d’Alma de Moçambique e o Coletivo Goiânia Clandestina, do Brasil

Mais do que intercâmbio, trata-se de mobilidade criativa com propósito. A proposta abre caminhos concretos para que artistas moçambicanos ocupem palcos brasileiros e que performers do Cerrado mergulhem nas dinâmicas culturais das cidades e províncias de Moçambique. A “rodagem” tão essencial à maturação artística, ganha aqui dimensão transatlântica, ampliando repertórios, estéticas e modos de criação.

Mazinho Souza, figura central do Goiânia Clandestina, vê o momento como histórico:

“Esse passo significa muito mais do que uma parceria institucional. É uma retomada de fluxos interrompidos. A gente está falando de devolver ao Atlântico Sul uma circulação que sempre existiu, mas foi silenciada. Agora, com autonomia, criamos um circuito onde artistas podem viver experiências, trocar saberes e produzir juntos, sem depender de validação externa.”

Do lado moçambicano, o sentimento é de conquista e projecção. Para Féling Capela, curador do Poetas d’Alma, o memorando representa o reconhecimento de uma trajectória construída com consistência no campo das artes performativas:

“Este acordo legitima um trabalho que já vínhamos fazendo no terreno. Para nós, é um ganho enorme em termos de visibilidade, mas também de responsabilidade. Passamos a operar como ponte mais activa, conectando artistas, ideias e oportunidades. É Moçambique a dialogar directamente com o mundo, a partir da sua própria voz.”

Sem financiamento directo previsto, o acordo aposta na inteligência colectiva: mapeamento de artistas, articulação de editais, parcerias institucionais e construção de redes. Esse modelo, longe de ser uma limitação, reflecte uma tendência contemporânea da indústria criativa mais colaborativa, descentralizada e resiliente.

Na prática, o impacto pode ser profundo. Residências artísticas permitirão imersões culturais prolongadas; oficinas vão estimular formação e partilha de técnicas; festivais conjuntos ampliarão públicos; e publicações colaborativas poderão registrar, em palavra e corpo, essa travessia estética. Cada acção fortalece não apenas os artistas envolvidos, mas também o ecossistema cultural de ambos os territórios.

Há, ainda, uma dimensão simbólica incontornável. Num cenário global em que as relações culturais frequentemente orbitam centros hegemônicos, esta parceria afirma uma cooperação Sul-Sul madura, consciente e estratégica. Não se trata de periferias dialogando com centros, mas de territórios criando seus próprios eixos.

Entre o Índico e o Cerrado, a poesia deixa de ser apenas expressão e passa a ser infraestrutura, uma ponte viva, sustentada por vozes, gestos e projectos que insistem em atravessar o oceano