Chapo desafia Navalha a baixar juros, aumentar crédito e proteger a economia produtiva

Novo governador do Banco de Moçambique recebe missão de equilibrar estabilidade monetária com crescimento económico e inclusão financeira

O Presidente da República, Daniel Chapo, lançou um conjunto de desafios ao novo governador do Banco de Moçambique, Felisberto Dinis Navalha, defendendo uma política monetária capaz de preservar a estabilidade macroeconómica, mas que permita também aumentar o financiamento à economia produtiva.

Falando durante a cerimónia de tomada de posse do novo governador, Chapo afirmou que Moçambique precisa de uma estabilidade que não seja sinónimo de imobilidade, mas uma plataforma para estimular o investimento, a produção, a poupança e o crescimento económico.

A intervenção coloca o crédito à economia entre os principais desafios da nova liderança do banco central. O Presidente questionou como o país poderá acelerar a industrialização se as empresas não conseguem financiar máquinas e equipamentos, ou desenvolver cadeias de valor quando os produtores enfrentam dificuldades para financiar a produção.

Um dos pontos mais sensíveis do discurso foi o crescimento da dívida pública interna. Chapo reconheceu que o recurso crescente do Estado ao mercado doméstico para financiar as suas necessidades pode pressionar as taxas de juro, a liquidez e os recursos disponíveis para financiar o sector produtivo.

Por isso, orientou ao Governo, particularmente ao Ministério das Finanças, para trabalhar em articulação com o Banco de Moçambique e o sistema financeiro na melhoria da gestão da liquidez pública.

A orientação é reduzir necessidades evitáveis de financiamento e, consequentemente, o custo do endividamento interno. Antes de decidir quanto o Estado deve contrair uma dívida, defendeu Chapo, é necessário saber quanto dinheiro público existe, onde está, quando será necessário e como pode ser utilizado de forma mais eficiente.

Divisas: produzir e exportar mais

O acesso às divisas foi igualmente apontado como um dos problemas que a nova liderança do banco central deverá acompanhar. O Presidente reconheceu as preocupações dos agentes económicos relativamente à disponibilidade de moeda estrangeira para financiar matérias-primas, equipamentos e outras operações necessárias à actividade económica.

Mas advertiu que a solução estrutural não depende apenas da política cambial ou do Banco de Moçambique. Para Chapo, Moçambique precisa de produzir mais, exportar mais, diversificar as exportações, transformar os seus recursos localmente e atrair investimento produtivo.

A chegada de Navalha representa, segundo Chapo, o início de um novo ciclo no Banco de Moçambique, depois de dez anos de liderança de Rogério Zandamela.

O Presidente reconheceu o período de Zandamela como particularmente exigente, marcado por pressões cambiais e inflacionárias, ciclones, pandemia da COVID-19, ruptura das cadeias internacionais de abastecimento e efeitos económicos dos conflitos internacionais.

Navalha chega ao cargo com 28 anos de experiência no Banco de Moçambique, onde desempenhou funções técnicas e de gestão sénior, incluindo director de Estudos Económicos e Estatísticas e administrador. Foi também consultor da Autoridade Tributária e docente da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane.

Independência, mas sem isolamento

Outro recado importante de Chapo foi sobre a relação entre o banco central e o Governo. O Presidente defendeu que o Banco de Moçambique deve actuar com independência, rigor técnico e responsabilidade, considerando que a credibilidade da política monetária depende também da independência operacional, transparência e comunicação.

Ao mesmo tempo, esclareceu que a independência do banco central não deve significar isolamento institucional e que a coordenação com o Governo não pode representar subordinação da política monetária à política fiscal ou financeira.

Na mensagem directa ao novo governador, Chapo pediu que Navalha valorize os quadros do Banco de Moçambique, promova o mérito, a competência, a integridade e o profissionalismo.

Também recomendou diálogo permanente com o Governo, sector financeiro, sector privado e academia, além de uma comunicação clara com os cidadãos. “Preserve aquilo que foi conquistado durante os 10 anos. Corrija aquilo que precisa de ser corrigido. Modernize aquilo que precisa de ser modernizado”, foi a orientação deixada ao novo governador.

No centro da nova agenda está a chamada Independência Económica de Moçambique, uma prioridade do Governo que, segundo Chapo, exige maior produção nacional, poupança, investimento, exportações e gestão prudente dos recursos.

Para o Presidente, o Banco de Moçambique terá um papel decisivo nesse processo, mas a estabilidade procurada não deverá ser uma “estabilidade da imobilidade”: deverá criar confiança para investir, poupar e produzir.