Marrocos: Rei Mohamed VI quer aceleração das reformas e justiça social 

Rei marroquino defende uma nova geração de investimentos estratégicos, coloca

a juventude no centro das políticas públicas, exige o fim dos atrasos na

descentralização e anuncia uma nova visão de cooperação internacional, com

destaque para a migração e as relações com Espanha.

Rabat, 9 de Outubro de 2026 – O Rei Mohammed VI de Marrocos defendeu, esta

sexta-feira, a aceleração das reformas económicas e administrativas, o reforço da

justiça social e territorial e a mobilização de novos investimentos em sectores

estratégicos, incluindo água, energia, segurança alimentar, indústria, economia

digital e inteligência artificial. O monarca falava perante o Parlamento, por ocasião

da abertura da primeira sessão do primeiro ano legislativo da 12.ª Legislatura, num

discurso que traçou as prioridades políticas e económicas para a próxima etapa de

desenvolvimento do Reino.

A intervenção colocou em evidência a necessidade de transformar o crescimento

económico em melhores condições de vida para os cidadãos, através da criação de

emprego, da modernização dos serviços públicos, do reforço da capacidade de

investimento e exportação e de uma distribuição mais equilibrada das

oportunidades entre as diferentes regiões do país.

Mohammed VI considerou que o novo ciclo legislativo e governativo deve

representar um ponto de viragem para Marrocos, com vista à consolidação da sua

ambição de se afirmar como uma potência económica emergente, sem perder de

vista as exigências de inclusão social.

O soberano sintetizou esta orientação ao defender um equilíbrio entre o dinamismo

económico e a justiça social e territorial, dois objectivos que, na sua perspectiva,

devem orientar as decisões políticas e a implementação das reformas.

O discurso abordou igualmente a necessidade de conferir maior eficácia à

administração pública, acelerar a descentralização, reforçar o papel do sector

privado e colocar os jovens no centro das políticas de desenvolvimento. No plano

externo, o Rei reafirmou a importância das parcerias internacionais, mas advertiu

que a cooperação migratória enfrenta limites que exigem uma nova abordagem.

Crescimento económico com justiça social e territorial

 Um dos principais eixos do discurso foi a necessidade de articular a ambição

económica de Marrocos com a redução das desigualdades sociais e territoriais.

Para Mohammed VI, o desenvolvimento não deve ser avaliado apenas pela

expansão da actividade económica ou pela dimensão dos investimentos, mas

também pela capacidade de melhorar as condições de vida da população e de

garantir oportunidades mais equilibradas.

O monarca afirmou que o novo mandato deve contribuir para consolidar um

Marrocos empenhado em tornar-se uma potência económica emergente e,

simultaneamente, em alcançar um equilíbrio entre o crescimento e uma justiça

social e territorial reforçada.

A mensagem aponta para uma agenda que procura conciliar competitividade,

modernização produtiva e inclusão. Neste quadro, o desafio consiste em assegurar

que os benefícios do crescimento alcancem diferentes segmentos da população e

territórios, reduzindo as disparidades no acesso aos serviços públicos, ao emprego

e às oportunidades de investimento.

O Rei enquadrou esta ambição num percurso de reformas políticas, diplomáticas,

económicas e sociais que, segundo afirmou, têm contribuído para transformar o

país. Ao recuperar uma declaração proferida no Parlamento em 2014, Mohammed

VI voltou a destacar o orgulho na identidade marroquina, apresentando-o não como

uma manifestação de complacência, mas como uma fonte de responsabilidade

colectiva. ‘’O orgulho nacional, aqui, não é uma forma de vaidade, nem uma

expressão de autossatisfação. Pelo contrário, é o catalisador que transforma o

sentimento de pertença em responsabilidade, a confiança em dever nacional’’,

afirmou.

No domínio económico, Mohammed VI defendeu a criação de uma nova geração

de grandes estratégias nacionais, capazes de responder às transformações

geoeconómicas internacionais e de reforçar a autonomia e a capacidade produtiva

do Reino. Entre os sectores identificados pelo soberano encontram-se a água, a

energia, a segurança alimentar, o desenvolvimento industrial, a economia digital e

a inteligência artificial.

A inclusão destas áreas na agenda estratégica reflecte a preocupação com a

capacidade de Marrocos para responder a riscos relacionados com a

disponibilidade de recursos essenciais, as alterações nas cadeias de abastecimento,

a transformação tecnológica e a competitividade industrial.

Juventude no centro das políticas públicasy

 A situação dos jovens ocupou uma posição central na intervenção real. Mohammed

VI defendeu que as suas preocupações devem passar para a linha da frente das

políticas públicas e da actuação dos organismos governamentais.

O soberano apelou à construção de uma visão integrada que articule educação,

formação profissional e integração económica, com o objectivo de garantir

igualdade de oportunidades e facilitar a transição dos jovens para a vida

profissional.

Na perspectiva apresentada, a formação e o acesso ao emprego são elementos

essenciais para fortalecer a confiança das novas gerações nas suas próprias

capacidades, nas instituições nacionais e nas perspectivas de futuro dentro do país.

O Rei afirmou que os jovens devem poder construir um futuro melhor num quadro

que assegure «liberdade, dignidade e estabilidade».

A referência à juventude liga a política económica à coesão social. A criação de

emprego, a qualificação profissional e o acesso a oportunidades deixam de ser

tratados apenas como objectivos sectoriais e passam a integrar uma visão mais

ampla de desenvolvimento e confiança nas instituições.

Migração: esgotado o actual modelo de cooperação

A política migratória e as relações com os parceiros internacionais, particularmente

Espanha, constituíram um dos segmentos mais sensíveis do discurso. Mohammed

VI reconheceu os resultados alcançados por Marrocos na gestão dos fluxos

migratórios, mas considerou que o modelo de cooperação actualmente em vigor já

não oferece respostas suficientes para os desafios existentes.

O monarca sustentou que a abordagem marroquina tem produzido resultados

concretos, mas advertiu que a repetição de crises demonstra a necessidade de rever

os mecanismos de cooperação internacional nesta área.

A declaração representa um apelo à reformulação dos entendimentos entre

Marrocos e os seus parceiros, num domínio que envolve controlo fronteiriço,

migração irregular, protecção de menores, procedimentos de asilo e combate às

redes criminosas.

O soberano estendeu esta avaliação à cooperação com Espanha, país vizinho com o

qual Marrocos mantém uma parceria em vários sectores, incluindo o combate à

imigração irregular.

Apesar de reconhecer os progressos alcançados nas relações bilaterais, Mohammed

VI apontou dificuldades relacionadas com determinadas disposições legais e

decisões judiciais que, segundo a sua avaliação, não correspondem à realidade dos

desafios migratórios.

Na perspectiva apresentada pelo Rei, esses obstáculos dificultam o repatriamento

de menores e de pessoas que, segundo afirmou, reivindicam indevidamente o

estatuto de refugiado, além de favorecerem a actividade das redes criminosas.

As afirmações reflectem a posição do soberano marroquino sobre o funcionamento

dos mecanismos migratórios. A sua aplicação concreta, porém, envolve questões

jurídicas e humanitárias que dependem dos respectivos enquadramentos legais e

das obrigações internacionais dos países envolvidos.

‘’Nenhuma pressão, ameaça ou chantagem’’ nas parcerias internacionais

Na abordagem às relações externas, Mohammed VI reafirmou que Marrocos

pretende manter-se como um parceiro internacional responsável e comprometido

com o cumprimento dos seus compromissos. Em contrapartida, defendeu que o

país deve receber tratamento equivalente dos seus parceiros.

O monarca rejeitou aquilo que classificou como declarações irresponsáveis de

determinados sectores políticos e mediáticos e criticou a exploração da questão

migratória para fins de pressão política. ‘’A parceria é uma escolha soberana e um

compromisso voluntário, que não pode ser sujeito a qualquer pressão, ameaça ou

chantagem’’, declarou.

A afirmação estabelece uma posição clara sobre os princípios que, na visão

marroquina, devem orientar as relações de cooperação: reciprocidade, respeito

pelos compromissos assumidos e ausência de imposições políticas.

Embora Espanha tenha sido o principal exemplo referido neste segmento, a

mensagem foi apresentada num quadro mais amplo de relacionamento com os

parceiros internacionais.

Mohammed VI anunciou que Marrocos apresentará aos seus parceiros um

documento estratégico destinado a definir uma nova orientação para a cooperação.