Na sua última entrevista à Revista ÁGORA, concedida no final de 2025, a histórica quadro da FRELIMO e antiga deputada defendeu o diálogo entre os moçambicanos, a igualdade de oportunidades e a educação da rapariga como pilares para a construção de uma sociedade mais inclusiva.
A Revista ÁGORA presta homenagem a Ana Rita Sithole, que perdeu a vida na semana passada, recuperando a sua última entrevista à publicação, na qual partilhou memórias da sua trajectória política, reflectiu sobre os desafios da Assembleia da República e defendeu a necessidade de reformas que fortaleçam a representação política e o diálogo nacional.
Ana Rita Sithole foi oradora no lançamento da quarta edição da Revista ÁGORA, realizado em Outubro de 2025, por ocasião das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional. Na ocasião, destacou a importância do entendimento entre os moçambicanos, da inclusão e da criação de oportunidades iguais para todos, com particular atenção à igualdade de género, que, no seu entender, começa pela educação da rapariga.
Uma vida ligada à história de Moçambique
Professora e mestre em Educação, Ana Rita Sithole integrou a chamada Geração 8 de Março, tendo desempenhado diferentes funções na educação e na vida política nacional. Membro da FRELIMO desde 1977, fez parte dos primeiros deputados do Parlamento multipartidário, em 1994, e permaneceu na Assembleia da República durante 30 anos consecutivos, até à sua reforma, em 2025.
Ao longo desse percurso, integrou a Comissão Permanente da Assembleia da República e ocupou posições de responsabilidade no partido, incluindo a sua participação no Comité Central, do sétimo ao décimo segundo congressos, e na Comissão Política, para a qual foi eleita no décimo primeiro congresso.
A sua trajectória levou-a também à dimensão parlamentar internacional, tendo presidido à Assembleia Parlamentar Paritária da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e União Europeia, uma função que considerava um dos pontos mais altos da sua carreira.
Na entrevista à Revista ÁGORA, Ana Rita Sithole recordou, com emoção, as celebrações da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975, que considerava um dos momentos mais marcantes da sua juventude.
“Todo o jovem gosta de novidades. No próprio dia 25 de Junho, fui ao Estado da Machava, saí com outros jovens, de machimbombo até ao bairro de Jardim, em Maputo, e, de lá, fomos andando a pé, a cantar, até ao Estádio da Machava”, recordou.
Apesar da chuva ligeira, a vontade de participar naquele momento histórico falou mais alto. “A emoção era tanta que todos queríamos participar daquele momento histórico e único. A independência, para todo o jovem, era como uma luz e liberdade”, afirmou.
A antiga deputada recordou igualmente as mudanças sociais que se seguiram à Independência, evocando o período em que vivia num lar feminino onde, em 1975, eram apenas três jovens negras. Com o fim do regime colonial, observou, o espaço passou a receber muitas mais raparigas negras, simbolizando a abertura de novas oportunidades no acesso à educação.
Lembrou que antes de integrar a Geração 8 de Março, Ana Rita Sithole trabalhou como formadora de Alfabetização e Educação de Adultos, actividade que marcou o início do seu percurso profissional e político.
“Fiz parte da geração 8 de Março, mas antes fui formadora de Alfabetização e Educação de Adultos, em resposta a um convite que recebi para alfabetizar militares no Ministério da Defesa, uma vez que muitos não liam nem falavam português”, contou.
Foi nesse contexto que teve contacto com várias figuras históricas da FRELIMO, entre as quais Samora Machel, Marcos Mabote, Sérgio Vieira, Óscar Monteiro e Mariano Matsinhe.
Com a decisão histórica de 8 de Março de 1977, foi reorientada para o ensino e frequentou um curso intensivo na Universidade Eduardo Mondlane, nas áreas de Química e Física.
“30 anos no Parlamento foram fruto do meu trabalho”
Ao reflectir sobre os seus 30 anos na Assembleia da República, Ana Rita Sithole destacou as dificuldades dos primeiros anos do multipartidarismo, marcados pela desconfiança entre as bancadas parlamentares da FRELIMO e da RENAMO.
“Durante os primeiros 10 anos, não foi fácil trabalhar. Era um parlamento bipolar, com a FRELIMO e a RENAMO. Passámos por um processo de conhecimento mútuo, uma vez que havia muita desconfiança”, explicou.
Segundo a antiga deputada, a aprovação de instrumentos legais e as revisões pontuais da Constituição exigiam entendimentos entre as duas bancadas. Com o passar dos anos, considerou, houve maior abertura ao diálogo e avanços na participação das mulheres, incluindo a criação do Gabinete da Mulher Parlamentar.
Sithole reconheceu, contudo, que esse processo exigiu persistência e trabalho de sensibilização, inclusive no seio do seu próprio partido, para que fossem compreendidas as mudanças sociais e políticas em curso.
Na entrevista, Ana Rita Sithole defendeu a profissionalização da Assembleia da República, criticando a percepção de que o Parlamento deve ser visto essencialmente como uma oportunidade de obter rendimentos ou melhorar a condição económica dos seus membros.
Para sustentar a sua posição, recordou a experiência acumulada ao longo de três décadas de actividade parlamentar e a participação em fóruns internacionais, onde chegou a presidir a uma assembleia que reunia representantes de 74 países da ACP e de 27 países da União Europeia.
Na sua perspectiva, o sistema eleitoral moçambicano não favorece suficientemente a especialização e a profissionalização dos deputados, questão que considerava importante para melhorar a qualidade da representação política.
A antiga deputada apontou o Compromisso Político para um Diálogo Nacional Inclusivo como uma oportunidade para discutir reformas estruturais, nomeadamente a Constituição da República e a legislação eleitoral.
“Para mim, são dois temas que devem ser discutidos neste compromisso: a Constituição da República, pois, mexendo na Lei Mãe, mexeremos no sistema e, se concluirmos que é necessário alterar o sistema, seremos obrigados a rever também as directivas eleitorais”, defendeu.
A sua reflexão colocava no centro do debate a necessidade de definir critérios e mecanismos que permitam uma representação parlamentar mais preparada e capaz de responder às exigências da sociedade.
Um legado que permanece
Apesar dos desafios que enfrentou ao longo da carreira, Ana Rita Sithole considerava-se uma mulher privilegiada pelas oportunidades que teve na educação, na política e na representação parlamentar internacional.
“São poucas as mulheres que tiveram a sorte que eu tive. Fiz de tudo, mas seguindo as normas”, afirmou, reconhecendo também a importância da saúde e da possibilidade de descansar após a reforma.
A presidência da Assembleia Parlamentar Paritária da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico e União Europeia representou, nas suas palavras, um dos momentos mais altos da sua trajectória. Depois de concluir o mandato, em Fevereiro de 2025, passou a exercer funções como presidente honorária.
A morte de Ana Rita Sithole encerra um percurso de várias décadas ligado à educação, à política e à representação parlamentar, mas as suas ideias permanecem actuais no debate sobre a participação das mulheres, a qualidade da democracia e o futuro das instituições moçambicanas.
Ao recuperar esta entrevista, a Revista ÁGORA recorda não apenas a dirigente que participou na construção do Parlamento multipartidário, mas também a mulher que defendeu o diálogo, a inclusão e a igualdade de oportunidades como condições essenciais para o desenvolvimento do país.
A sua defesa da educação da rapariga, da profissionalização parlamentar e de um diálogo nacional capaz de aproximar os moçambicanos constitui parte importante do testemunho que deixa às novas gerações.
Ana Rita Sithole fica, assim, na memória da Revista ÁGORA como uma das vozes que, através da sua experiência e reflexão, procuraram contribuir para uma sociedade moçambicana mais inclusiva, participativa e comprometida com a igualdade.
Na sua última entrevista à Revista ÁGORA, concedida no final de 2025, a histórica dirigente da FRELIMO e antiga deputada defendeu o diálogo entre os moçambicanos, a igualdade de oportunidades e a educação da rapariga como pilares para a construção de uma sociedade mais inclusiva.
A Revista ÁGORA presta homenagem a Ana Rita Sithole, que perdeu a vida na semana passada, recuperando a sua última entrevista à publicação, na qual partilhou memórias da sua trajectória política, reflectiu sobre os desafios da Assembleia da República e defendeu a necessidade de reformas que fortaleçam a representação política e o diálogo nacional.
Ana Rita Sithole foi oradora no lançamento da quarta edição da Revista ÁGORA, realizado em Outubro de 2025, por ocasião das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional. Na ocasião, destacou a importância do entendimento entre os moçambicanos, da inclusão e da criação de oportunidades iguais para todos, com particular atenção à igualdade de género, que, no seu entender, começa pela educação da rapariga.
Uma vida ligada à história de Moçambique
Professora e mestre em Educação, Ana Rita Sithole integrou a chamada Geração 8 de Março, tendo desempenhado diferentes funções na educação e na vida política nacional. Membro da FRELIMO desde 1977, fez parte dos primeiros deputados do Parlamento multipartidário, em 1994, e permaneceu na Assembleia da República durante 30 anos consecutivos, até à sua reforma, em 2025.
Ao longo desse percurso, integrou a Comissão Permanente da Assembleia da República e ocupou posições de responsabilidade no partido, incluindo a sua participação no Comité Central, do sétimo ao décimo segundo congressos, e na Comissão Política, para a qual foi eleita no décimo primeiro congresso.
A sua trajectória levou-a também à dimensão parlamentar internacional, tendo presidido à Assembleia Parlamentar Paritária da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e União Europeia, uma função que considerava um dos pontos mais altos da sua carreira.
Na entrevista à Revista ÁGORA, Ana Rita Sithole recordou, com emoção, as celebrações da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975, que considerava um dos momentos mais marcantes da sua juventude.
“Todo o jovem gosta de novidades. No próprio dia 25 de Junho, fui ao Estado da Machava, saí com outros jovens, de machimbombo até ao bairro de Jardim, em Maputo, e, de lá, fomos andando a pé, a cantar, até ao Estádio da Machava”, recordou.
Apesar da chuva ligeira, a vontade de participar naquele momento histórico falou mais alto. “A emoção era tanta que todos queríamos participar daquele momento histórico e único. A independência, para todo o jovem, era como uma luz e liberdade”, afirmou.
A antiga deputada recordou igualmente as mudanças sociais que se seguiram à Independência, evocando o período em que vivia num lar feminino onde, em 1975, eram apenas três jovens negras. Com o fim do regime colonial, observou, o espaço passou a receber muitas mais raparigas negras, simbolizando a abertura de novas oportunidades no acesso à educação.
Lembrou que antes de integrar a Geração 8 de Março, Ana Rita Sithole trabalhou como formadora de Alfabetização e Educação de Adultos, actividade que marcou o início do seu percurso profissional e político.
“Fiz parte da geração 8 de Março, mas antes fui formadora de Alfabetização e Educação de Adultos, em resposta a um convite que recebi para alfabetizar militares no Ministério da Defesa, uma vez que muitos não liam nem falavam português”, contou.
Foi nesse contexto que teve contacto com várias figuras históricas da FRELIMO, entre as quais Samora Machel, Marcos Mabote, Sérgio Vieira, Óscar Monteiro e Mariano Matsinhe.
Com a decisão histórica de 8 de Março de 1977, foi reorientada para o ensino e frequentou um curso intensivo na Universidade Eduardo Mondlane, nas áreas de Química e Física.
“30 anos no Parlamento foram fruto do meu trabalho”
Ao reflectir sobre os seus 30 anos na Assembleia da República, Ana Rita Sithole destacou as dificuldades dos primeiros anos do multipartidarismo, marcados pela desconfiança entre as bancadas parlamentares da FRELIMO e da RENAMO.
“Durante os primeiros 10 anos, não foi fácil trabalhar. Era um parlamento bipolar, com a FRELIMO e a RENAMO. Passámos por um processo de conhecimento mútuo, uma vez que havia muita desconfiança”, explicou.
Segundo a antiga deputada, a aprovação de instrumentos legais e as revisões pontuais da Constituição exigiam entendimentos entre as duas bancadas. Com o passar dos anos, considerou, houve maior abertura ao diálogo e avanços na participação das mulheres, incluindo a criação do Gabinete da Mulher Parlamentar.
Sithole reconheceu, contudo, que esse processo exigiu persistência e trabalho de sensibilização, inclusive no seio do seu próprio partido, para que fossem compreendidas as mudanças sociais e políticas em curso.
Na entrevista, Ana Rita Sithole defendeu a profissionalização da Assembleia da República, criticando a percepção de que o Parlamento deve ser visto essencialmente como uma oportunidade de obter rendimentos ou melhorar a condição económica dos seus membros.
Para sustentar a sua posição, recordou a experiência acumulada ao longo de três décadas de actividade parlamentar e a participação em fóruns internacionais, onde chegou a presidir a uma assembleia que reunia representantes de 74 países da ACP e de 27 países da União Europeia.
Na sua perspectiva, o sistema eleitoral moçambicano não favorece suficientemente a especialização e a profissionalização dos deputados, questão que considerava importante para melhorar a qualidade da representação política.
A antiga deputada apontou o Compromisso Político para um Diálogo Nacional Inclusivo como uma oportunidade para discutir reformas estruturais, nomeadamente a Constituição da República e a legislação eleitoral.
“Para mim, são dois temas que devem ser discutidos neste compromisso: a Constituição da República, pois, mexendo na Lei Mãe, mexeremos no sistema e, se concluirmos que é necessário alterar o sistema, seremos obrigados a rever também as directivas eleitorais”, defendeu.
A sua reflexão colocava no centro do debate a necessidade de definir critérios e mecanismos que permitam uma representação parlamentar mais preparada e capaz de responder às exigências da sociedade.
Um legado que permanece
Apesar dos desafios que enfrentou ao longo da carreira, Ana Rita Sithole considerava-se uma mulher privilegiada pelas oportunidades que teve na educação, na política e na representação parlamentar internacional.
“São poucas as mulheres que tiveram a sorte que eu tive. Fiz de tudo, mas seguindo as normas”, afirmou, reconhecendo também a importância da saúde e da possibilidade de descansar após a reforma.
A presidência da Assembleia Parlamentar Paritária da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico e União Europeia representou, nas suas palavras, um dos momentos mais altos da sua trajectória. Depois de concluir o mandato, em Fevereiro de 2025, passou a exercer funções como presidente honorária.
A morte de Ana Rita Sithole encerra um percurso de várias décadas ligado à educação, à política e à representação parlamentar, mas as suas ideias permanecem actuais no debate sobre a participação das mulheres, a qualidade da democracia e o futuro das instituições moçambicanas.
Ao recuperar esta entrevista, a Revista ÁGORA recorda não apenas a dirigente que participou na construção do Parlamento multipartidário, mas também a mulher que defendeu o diálogo, a inclusão e a igualdade de oportunidades como condições essenciais para o desenvolvimento do país.
A sua defesa da educação da rapariga, da profissionalização parlamentar e de um diálogo nacional capaz de aproximar os moçambicanos constitui parte importante do testemunho que deixa às novas gerações.
Ana Rita Sithole fica, assim, na memória da Revista ÁGORA como uma das vozes que, através da sua experiência e reflexão, procuraram contribuir para uma sociedade moçambicana mais inclusiva, participativa e comprometida com a igualdade.