A formação de quadros e o acesso ao emprego constituem variáveis concomitantes que, além de auxiliarem no delineamento de políticas mais apropriadas às necessidades de crescimento de um país, permitem assegurar a inserção e a participação responsável de cada cidadão na vida social da qual ele mesmo faz parte.
Esta acepção permite estabelecer uma perfeita paráfrase com as ideias do académico e ex-deputado da Assembleia da República pelo círculo Eleitoral da Europa e o Resto do Mundo, Rui Sixpence Conzane, radicado na Alemanha, olhando em vários prismas, para os desafios do país na nova governação.
Na óptica de Sixpence, quadro sénior da GIZ, Instituto pertencente ao Ministério para a Cooperação e Desenvolvimento Económico alemão – BMZ e Privada, a implementação de uma política que conecte a formação ao emprego é fundamental para resolver o atual problema do país, que se reflete na graduação anual de milhares de jovens nos diferentes estabelecimentos de ensino superior, enquanto os níveis de desemprego continuam a crescer.
“Os jovens investem na formação, a sua escolha, que lhes vai garantir o futuro nos próximos anos. Durante a sua formação, estão com os olhos postos no mercado de trabalho, até porque sofrem alguma pressão psicológica, ainda que subtil, das pessoas que contribuíram para a conquista do diploma”, explica a fonte, através desta imersão antropológica nos modelos de vida das sociedades africanas.
Todavia, será necessário haver uma maior aposta em cursos alinhados às demandas do mercado e uma maior mobilidade dos jovens para responder aos desafios que, de tempos em tempos, os mercados famintos da seiva intelectual das mentes vão, sem dúvida, colocar ao país.
Sixpence apontou, a título de exemplo, a sua experiência ao obter o doutoramento em Química alimentar na Alemanha. Disse que na altura, a indústria alimentar necessitava de quadros para responder aos desafios do mercado, o que levou muitos jovens a formarem-se em Berlim. Contudo, com o passar do tempo, a procura na área diminuiu drasticamente e, mais tarde, cessou, obrigando muitas pessoas a buscarem emprego em outros setores.
Por isso, a formação deve estar intrinsecamente ligada às necessidades do mercado, através de políticas que assegurem tanto a formação quanto o subsequente enquadramento profissional.
As crescentes necessidades do mercado podem, por um lado, abrir uma janela de oportunidades para os jovens adquirirem maior domínio das novas tecnologias dominantes na idade contemporânea, que desempenham papéis fundamentais na provisão de soluções para os problemas que afetam as economias dos países em desenvolvimento.
Nesse contexto, Sixpence aponta o caso da laranja, a fruta mais consumida e conhecida da classe dos citrinos. Seu aproveitamento não se circunscreve apenas à produção de sumos, pois a respectiva casca é uma excelente e abundante reserva nutricional.
Ela contém, entre outros elementos, vitamina C e minerais como ferro, fósforo, potássio, cobre e zinco e outros em pequenas quantidades. “As novas tecnologias, além de produzir o sumo, podem processar a casca da laranja e a própria polpa da fruta em diferentes formas, invés de pensar apenas no sumo que queremos consumir”, Explica Sixpence.
Ele também destaca o potencial do malembe, fruto abundante na província central de Tete, sua terra natal, que é outra rica fonte de vitamina C. Segundo Sixpence, o malambe pode ser utilizado como alimento para crianças que, ao nascer, apresentam carência desse elemento essencial.
Segundo ele, ao invés de administrar medicamentos de suplementação prescritos pelo sistema de saúde às crianças, o país pode usar variedades de vitamina derivadas desta fruta.
Como o exemplo, o Japão, um gigante económico do Sudeste Asiático, produz yogurte de malambe, cuja matéria-prima é importada de países da Costa ocidental africana. Além dos yogurtes produz já esta vitamina.
Todavia, mais do que apostar nas tecnologias contemporâneas, Sixpence defende que é igualmente necessário envolver todos os segmentos da sociedade na busca de soluções que atendam às necessidades dos jovens. Ele destaca que, em qualquer parte do mundo, a juventude espera, no seu governo, a solução para os seus problemas.
Alias, é por isso que Sixpence aponta, como desafios do novo governo no quinquénio 2025/2029, a continuidade das realizações feitas nos últimos 10 anos, sobretudo no que diz respeito à manutenção da paz e da unidade nacional.
No capítulo da economia, o desafio será, obviamente, a identificação de formas que permitam a inclusão de todos os moçambicanos no processo de desenvolvimento económico. “A identificação das fórmulas conducentes à satisfação das necessidades da camada jovem e, em segundo lugar, verificar até que ponto os ganhos gerados pela economia podem contribuir efetivamente para responder aos anseios da população, são os maiores desafios”.
Ainda na pauta de desafios, Sixpence, que também possui licenciatura em Ciências Políticas, afirma ser importante assegurar que as instituições do Estado – nomeadamente a Educação e a Saúde- e sem deixar de fora o setor produtivo da agricultura, que correspondem as necessidades da população, respondam às crescentes inquietações dos moçambicanos.
Neste prisma de políticas que asseguram a formação e o subsequente enquadramento, é muito importante olhar matrix das micro-pequenas e médias empresas, pois são essas que precisam desses recursos para o seu crescimento, para além de financeiros. E os jovens pode oferecer o desejado now-how.
Em relação a percepção da Europa sobre Moçambique no contexto das descobertas energéticas, Rui Sixpence disse que tempos houve em que pouco se falava do país na imprensa ocidental, mas as recentes descobertas e perspectivas do potencial energético nacional no contexto mundial, colocam Moçambique num outro prisma, com o Ocidente a olhar para o país como impulsionador do desenvolvimento global.
“Assegurar a paz e coesão”
“O presente governo tem o desafio de assegurar a paz; a coesão e a unidade nacional para que o país continue a ser visto como um destino preferencial dos investimentos e dos empresários em diversas partes do mundo, não obstante o terrorismo em Cabo Delgado e os conflitos pós-eleitorais”.
Sixpence acredita na boa vontade dos moçambicanos e dos seus dirigentes políticos de se ultrapassar estas divergências para recolocar o país no rumo do desenvolvimento e atractividade económica. De acordo com a fonte, a Europa dá nota positiva ao desenvolvimento de Moçambique, mas reconhece a necessidade de reformas estruturantes no âmbito legal e político.
Tais reformas são cruciais para criar condições sustentáveis que impulsionem o crescimento económico, o que inclui esforços para combater a pobreza, promover maior inclusão e garantir oportunidades iguais para diferentes segmentos da população, especialmente no acesso ao emprego e à assistência social básica.
Sixpence Conzane, alerta ainda que, se o desenvolvimento não atender às expectativas da população, que é o principal destinatário dos programas de crescimento e progresso – os países começarão a questionar a relação entre os avanços económicos e a equidade na distribuição da renda nacional.
“Melhor gestão de recursos naturais”
Existe um número cada vez mais crescente de quadrantes de opinião que considera Moçambique como laboratório sociopolítico do mundo. Para Rui Sixpence, essa percepção resulta da experiência consumada pelo país, que, após anos de guerra sangrenta, conseguiu restaurar a boa convivência entre os cidadãos.
O crescimento do PIB, as recentes descobertas de recursos naturais abundantes e a transição de 16 anos de guerra para uma estabilidade política e económica constitui, aos olhos do mundo, um exemplo.
Sixpence apontou um debate onde esteve presente a alguns anos, cujo cerne da discussão era o futuro do Afeganistão. Nesse encontro, os participantes questionavam por que não seguir a experiência de Moçambique que, após vários anos de guerra civil, as pessoas continuam a viver juntas. Além disso, a questão da descoberta de gás natural na Bacia sedimentar do Rovuma, as minas de carvão em Moatize e as diversas reservas de minérios e areias pesadas são recursos que espelham um desenvolvimento económico promissor num futuro próximo, mas para que estes recursos sejam o nosso orgulho deve haver total transparência na sua exploração, gestão e partilha.
Porém, as organizações da sociedade civil apontam a experiência da Nigéria, que, abençoada com uma enorme reserva de recursos, ficou amaldiçoada com as excessivas guerras nas regiões onde os mesmos ocorrem.
“O laboratório de que se está a falar é a forma como Moçambique pode utilizar as experiências desses países para o seu próprio desenvolvimento. Rui Sixpence Conzane, explica que quando se fala das descobertas dos recursos naturais num país, a perspectiva e ansiedade da população é muito maior.
Muitas vezes as descobertas criam a sensação, de que o país será rico e que haverá muitos postos de emprego. Mas, para que isso aconteça deve se seguir muitos parâmetros. “Por exemplo, os acordos com as multinacionais devem contemplar muito a população local, o que significa que a matéria-prima seja processada localmente”.
Segundo ele, um aspecto, que não é menos importante, é a tecnologia, que cada vez mais está se desenvolver, o que obriga a substituição do recurso humano pela técnica, situação que provoca uma onda de desemprego pré-programado. “Nestas situações, o governo deve criar alternativas para absolver centenas de jovens que se encontram nas ruas por falta de ocupação, como por exemplo linhas de créditos direccionadas a esses grupos”, finalizou.
Texto publicado na terceira edição da Revista ÁGORA –
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